Zelaya segue para o exílio; termina crise em Honduras

Por Sean Mattson e Gustavo Palencia TEGUCIGALPA (Reuters) - Depois de passar mais de quatro meses refugiado na embaixada do Brasil em Tegucigalpa, o presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, embarcou para o exílio nesta quarta-feira, quando a posse de um novo presidente encerrou uma crise política que se arrastava desde o golpe militar de junho.

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Milhares de seguidores aplaudiram e gritaram ao ver a decolagem do avião do governo dominicano que levou Zelaya para Santo Domingo, pouco depois da posse do líder oposicionista Porfirio Lobo como presidente. Muitos agitavam bandeiras vermelhas e chapéus de boiadeiro, nos quais se viam faixas vermelhas com o apelido de Zelaya - "Mel".

"Estamos tristes por ele ir embora, mas ele voltará em breve", disse a técnica de laboratório Florita Milla, de 38 anos.

Lobo recebeu a faixa presidencial numa cerimônia no Estádio Nacional diante de líderes estrangeiros, militares e seguidores. Ele prometeu deixar para trás o caos dos últimos sete meses. "Hoje queremos curar as feridas do passado".

O Brasil e outros governos latino-americanos não reconheceram -- ao menos por enquanto -- a legitimidade do mandato de Lobo, já que sua eleição, em 29 de novembro, foi organizada pelo governo de facto instaurado depois do golpe.

Zelaya foi deposto e expulso do país de pijama, na noite anterior a um referendo pelo qual buscava reformar a Constituição e disputar um novo mandato. Ele voltou clandestinamente a Honduras em 21 de setembro, e desde então estava refugiado na embaixada brasileira, sob ameaça de ser preso caso deixasse o local.

Houve vários meses de negociações infrutíferas para que ele voltasse ao poder e o país saísse da crise política, a pior das últimas décadas na América Central.

Na semana passada, um acordo entre Lobo e o governo dominicano abriu caminho para que ele partisse para o exílio, e na terça-feira o Congresso aprovou uma anistia política a Zelaya, o que no entanto não afetou as acusações criminais imputadas a ele, nem sua decisão de deixar o país.

Na terça-feira ele disse que havia aceitado "um convite" do governo dominicano,, "obviamente com a aprovação do novo governo" hondurenho.

A partida de Zelaya marca um fracasso da diplomacia regional, que não conseguiu restaurar o estado democrático de direito. A crise revelou também divisões entre o governo de Barack Obama, nos EUA, e outros países latino-americanos, já que Washington reconheceu a eleição de Lobo, embora tivesse inicialmente criticado o golpe e cortado ajuda financeira ao governo de facto.

Obama também apoiou as negociações entre Zelaya e o governo de facto, que terminaram sem nenhum resultado concreto.

À ESPERA DE AJUDA

O Brasil, tentando ampliar sua influência diplomática na região, concedeu refúgio a Zelaya em sua embaixada quando o líder deposto retornou a Honduras em setembro. Mas seus partidários transformaram a representação diplomática em um caótico acampamento e tropas cercaram o prédio.

O presidente de facto de Honduras, Roberto Micheletti, nomeado pelo Congresso no dia do golpe, seguiu no cargo mesmo após os Estados Unidos cortarem a ajuda militar e bancos multinacionais terem congelado empréstimos ao país. Ele afirmou que só sairia com a posse do novo presidente em 27 de janeiro.

Grupos de direitos humanos documentaram sérios abusos, incluindo mortes, enquanto forças de segurança reprimiam protestos pró-Zelaya semanas após o golpe.

Lobo, um rico proprietário de terras da mesma província rural de Zelaya, afirmou querer superar a pior crise política da América Central em décadas e recuperar a ajuda internacional cortada.

"Devido à crise política, Honduras perdeu 2 bilhões de dólares em ajuda estrangeira e investimentos internacionais", afirmou durante sua cerimônia de posse. A economia hondurenha, baseada na exportação de café e de tecidos, sofre com a crise econômica mundial.

A maioria dos hondurenhos está ansiosa em deixar a crise para trás.

"É um alívio que agora haja menos pressão de fora", disse Jorge Sierra, segurança de 43 anos.

Líderes econômicos e adversários políticos do próprio partido de Zelaya acusaram-no de ter violado a Constituição para seguir no poder, repetindo políticas adotadas pelo presidente venezuelano, Hugo Chávez.

Zelaya nega as acusações, mas ainda há um mandado de prisão contra ele. Sob o acordo acertado com Lobo, que permitiu sua ida para a República Dominicana, ele poderá evitar o julgamento.

Ele prometeu retornar um dia ao país, mas seu futuro político parece obscuro. Seu exílio também poderá limitar o alcance regional de Chávez.

Como um sinal de que Honduras está tentando apagar as lembranças do golpe, uma Corte Suprema do país inocentou líderes militares de acusações de abusos de poder no dia do golpe.

(Reportagem adicional de Miguel Angel Gutierrez e Gustavo Palencia)

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