Las Manos (Nicarágua), 24 jul (EFE).- O presidente deposto de Honduras Manuel Zelaya voltou à Nicarágua após atravessar a linha fronteiriça com o país e permanecer duas horas em território neutro, à espera de dialogar com a Chefia do Exército hondurenho.

"Recebi três ligações de membros assessores próximos (ao Estado-Maior das Forças Armadas) e estão fazendo as comunicações a fim de garantir a paz", disse o líder aos jornalistas que o acompanham em seu retorno a Honduras.

Já o Governo interino de Roberto Micheletti lamentou que o presidente deposto tenha recorrido à força após, segundo ele, abandonar o diálogo para buscar uma saída pacífica à crise política do país, e acusou o líder de promover a "subversão".

O Ministério das Relações Exteriores, em comunicado, disse que "deplora" que Zelaya "abandone a mediação, declarando-a fracassada, e recorra ao uso da força, colocando em risco a vida dos hondurenhos".

Zelaya "desatendeu o apelo das instâncias internacionais como o Departamento de Estado americano, de outros Governos da América e do mundo que favorecem uma solução pacífica à situação política de Honduras", disse a Chancelaria.

"Em seu lugar", afirmou, "promove a subversão, o banho de sangue e tropas estrangeiras para manchar a soberania e a honra nacionais".

Já Zelaya afirma que não quer voltar ao país para provocar, para que os militares tenham que atirar nele e que depois não possam resolver a crise.

"Porque se me machucam ou me matam não será possível resolver a crise e o problema se tornará mais grave", afirmou.

"Eu estou disposto a fazer o esforço, arriscar-me e a colocar-me na frente dos militares, não tenho medo, mas também faço uso da razão e tenho objetividade em minhas ações, venho desarmado, sem colete nem salva-vidas", disse Zelaya.

A Agência Efe constatou que, após permanecer na zona neutra por duas horas, o líder deposto voltou ao lado nicaraguense para esperar uma resposta dos membros do Estado-Maior do Exército de Honduras à proposta de diálogo.

Zelaya disse que antes conversou com outros militares do país que se encontram na zona fronteiriça e que espera que estes administrem o diálogo com os chefes do Exército hondurenho.

O governante deposto chegou à fronteira com Honduras a partir de Manágua, onde na quinta-feira iniciou a viagem e que hoje retomou desde Estelí e Yalagüina, onde concedeu uma entrevista coletiva.

Durante a viagem, em um bom percurso, Zelaya foi acompanhado pelo chanceler venezuelano, Nicolás Maduro, e pelo ex-guerrilheiro sandinista Edén Pastora, conhecido como "Comandante Cero".

A chegada de Zelaya à fronteira com Honduras aconteceu pouco depois que o novo Governo hondurenho estabeleceu hoje um novo toque de recolher especial a partir de meio-dia (15h de Brasília) para as fronteiras com a Nicarágua e El Salvador.

Antes de alcançar a divisa com Honduras, Zelaya disse em Yalagüina que possuía meios aéreos e terrestres para entrar "imediatamente" no país "com bandeiras brancas da paz".

Ele explicou que tem várias opções para entrar em Honduras.

"Temos o direito e dever moral de chegar hoje a Honduras e tenho diferentes aparelhos aéreos e terrestres para entrar por qualquer dessas fronteiras", reafirmou Zelaya na estrada perto de Yalagüina.

Enquanto Zelaya concedia sua entrevista coletiva, diferentes personalidades, como os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e do Uruguai, Tabaré Vázquez, ligaram para ele para expressar apoio para que seja restituído no cargo.

O líder deposto voltou a pedir aos seguidores para não se renderem perante a repressão e disse aos soldados que os fuzis sejam usados para defender o povo, e não contra a população.

"Atendam às minhas instruções, porque sigo sendo o comandante-em-chefe do Exército", insistiu Zelaya.

"São uns bárbaros, são uns tiranos, mas estamos dispostos a abrir um precedente para que este golpe não se repita", respondeu Zelaya quando perguntado sobre sua opinião em relação às ordens das autoridades hondurenhas para ampliar o toque de recolher.

Ele afirmou não temer essa medida, a qual considerava nula por ter sido ordenada por um regime golpista, e disse a seus seguidores que caso sejam atacados com bombas de gás lacrimogêneo, que peguem os artefatos e os devolvam aos policiais.

As autoridades hondurenhas reiteraram que se Zelaya entrar em Honduras, será detido. EFE fm/db

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.