O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, confirmou, durante coletiva nesta segunda-feira em Nova York, que o presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, está abrigado na embaixada brasileira na capital hondurenha, Tegucigalpa. Segundo Amorim, que está na cidade americana para participar da Assembleia Geral das Nações Unidas, Zelaya teria chegado a Tegucigalpa por terra, vindo da Nicarágua.

O chanceler disse que, nesta segunda-feira, a embaixada brasileira foi procurada por uma deputada e pela mulher de Zelaya, Xiomara Castro, que solicitaram que a representação diplomática abrigasse o presidente deposto.

Ainda de acordo com Amorim, após a autorização de Brasília, Zelaya foi recebido na embaixada.

"Por enquanto estamos dando abrigo a ele e nos dispusemos a facilitar o diálogo entre Zelaya e o governo 'de facto'", disse o ministro.

O chanceler brasileiro disse que qualquer tentativa de retirar Zelaya da embaixada será considerada uma desobediência ao direito internacional.

"Apelamos para o bom senso, para que não haja nenhum ato de violência", disse.

"Dia de festa"
Pouco antes das declarações de Amorim, Manuel Zelaya confirmou à rede de TV Telesur que está abrigado na embaixada do Brasil em Tegucigalpa.

Ele agradeceu o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ainda afirmou que o secretário-geral da OEA (Organização dos Estados Americanos), José Miguel Insulza, chegará a Tegucigalpa na terça-feira para mediar a crise política no país.

"Amanhã estará aqui o secretário Insulza (...) ele disse que quer vir hoje mesmo", disse.

Dirigindo-se às Forças Armadas, Zelaya pediu que "não haja violência, nem armas".

"As pessoas que estão com a gente estão desarmadas, pacificamente, gritando lemas com alegria porque hoje, logicamente, é um dia de festa para nós", afirmou Zelaya.

Desde que foi anunciado o regresso do presidente eleito, a administração interina enviou às ruas um grande número de militares.

Milhares de pessoas aguardam do lado de fora da embaixada brasileira a aparição do presidente hondurenho, que há duas semanas advertiu que regressaria ao país antes do final deste mês.

Zelaya foi deposto da Presidência no último dia 28 de junho. Em seu lugar assumiu o presidente interino Roberto Micheletti.

"Vitória"
Para Berta Oliva, dirigente da organização Cofadeh - que pertence a uma rede de entidades que apoiam Zelaya -, o regresso do presidente deposto é "uma vitória do povo".

"Uma de nossas reivindicações era reverter o golpe e o retorno de Zelaya deve garantir isso", disse Oliva à BBC Brasil.

Oliva, no entanto, adverte que a disputa mais difícil a partir de agora será a realização da Assembleia Nacional Constituinte, razão pela qual a oposição argumenta ter deposto Manuel Zelaya.

"A população está convencida da necessidade de uma Constituinte, mas temo que os golpistas optem pelo enfrentamento e pela violência para impedir esse processo", afirmou.

O possível regresso de Zelaya ocorre em meio à campanha para as eleições convocadas para o dia 29 de novembro, pleito que a Organização de Estados Americanos (OEA), o Brasil e a maioria dos países da região afirmaram não reconhecer caso Zelaya não seja restituído.

Ainda não está claro se a volta de Zelaya pode reativar o acordo de San José, rejeitado por Micheletti e seus aliados, que prevê, entre outros pontos, o retorno de Zelaya à Presidência, a antecipação das eleições gerais agendadas para novembro e o abandono da proposta de consulta popular para convocar uma Assembleia Constituinte.

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