O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, está disposto a fechar um acordo de conciliação com o governo interino ainda que isso signifique regressar com mãos e pés amarrados à Presidência, afirmou a esposa do presidente deposto, Xiomara Castro, em entrevista à BBC Brasil. Segundo Castro, as exigências previstas no acordo de San José sobre o retorno de Zelaya ao poder limitariam as ações do presidente, mas ele estaria disposto a aceitá-las.

"Quando o Acordo de San José fala de um gabinete integrado de reconciliação, quando determina que o presidente não pode retomar o tema da consulta popular e da Assembleia Constituinte, a única exigência reconhecida é a volta dele à Presidência", afirmou Castro, em entrevista por telefone.

"O restante do acordo contempla a intransigência do governo interino, mas ainda assim o presidente está disposto a voltar, de mãos e pés amarrados, para assegurar o retorno à democracia", disse.

Xiomara Castro se reuniu na tarde desta segunda-feira, em Tegucigalpa, com o secretário-geral da Organização de Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza e outros sete chanceleres que integram a missão que visita o país com o objetivo de convencer o governo interino, liderado por Roberto Micheletti, a aceitar o acordo de San José, proposto pelo presidente da Costa Rica, Oscar Arias.

O acordo prevê, entre outros pontos, o retorno de Zelaya à Presidência, a antecipação das eleições gerais agendadas para novembro, a formação de um gabinete de coalizão e o abandono da proposta de consulta popular para convocar uma Assembléia Constituinte - medida que levou à deposição de Zelaya.

O líder do governo interino, Roberto Micheletti, disse que sua posição continua sendo a mesma e que "não aceitará imposições".

"Espero que entendam que o que fizemos foi baseado na Constituição", afirmou Micheletti.

No domingo, a Suprema Corte de Honduras emitiu um parecer rejeitando o acordo de San José. Segundo a Corte, o governo de Micheletti foi instaurado como parte de uma "sucessão constitucional".

Legitimidade eleitoral
A comunidade internacional tem pressa em solucionar a crise. De acordo com Rafael Alegria, um dos dirigentes da Frente de Resistência Contra o Golpe, o secretário-geral da OEA expressou preocupação, em reunião realizada nesta segunda-feira, com relação à legitimidade das eleições marcadas para novembro, caso o governo interino não aceite o acordo que permite a volta de Zelaya à Presidência.

"Nós reiteramos à OEA que não há como haver eleições transparentes com um regime de fato, repressor, que controla absolutamente todos os poderes", afirmou Alegria à BBC Brasil.

"Insulza concordou e reiterou que o organismo não legitimará as eleições sem que a ordem constitucional seja restituída", disse.

Na reunião com a OEA, a Frente de Resistência teria alertado sobre um prazo, estipulado até a sexta-feira, para que um acordo seja estabelecido, caso contrário, "boicotarão" as eleições.

"Se Zelaya não retornar, não participaremos das eleições e no dia 1º de setembro iniciaremos a campanha por uma Assembleia Nacional Constituinte", acrescentou.

De acordo com negociadores ouvidos pela BBC Brasil, o dia 28 também seria a data limite adotada pelo departamento de Estado americano para solucionar a crise hondurenha, um dia antes do início oficial da campanha eleitoral para as eleições de novembro.

A esposa de Zelaya indicou que o presidente deposto trabalha com os mesmos prazos.

"O presidente está pronto para vir a Tegucigalpa assinar o acordo de San José no dia 1º de setembro", afirmou.

Protestos
Nesta segunda-feira, quase dois meses após a deposição de Zelaya, milhares de hondurenhos voltaram a tomar as ruas da capital, Tegucigalpa, para exigir o retorno do líder à Presidência.

Centenas de taxistas aderiram aos protestos e bloquearam as principais ruas e avenidas da capital. A manifestação foi reprimida por policiais e oficiais do Exército.

Na madrugada, os dois meios de comunicação pró-Zelaya, rádio Globo e o canal de TV 36, foram atacados por um grupo de homens encapuzados que destruíram os transmissores tanto da rádio, como do canal de televisão.

No final da tarde, apenas a rádio Globo transmitia sua programação, limitada a alguns pontos do país.

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