Zelaya cruza brevemente a fronteira com Honduras

Por Iván Castro e Esteban Israel LAS MANOS, Honduras (Reuters) - O presidente deposto Manuel Zelaya cruzou na sexta-feira a fronteira da Nicarágua com Honduras por alguns metros, enquanto pedia para dialogar com militares em um desafio à ordem de prisão estabelecida pelo governo interino contra ele.

Reuters |

Com seu tradicional chapéu de boiadeiro, Zelaya chegou à frente de uma caravana, dirigindo um jipe branco e acompanhado do chanceler da Venezuela, Nicolás Maduro.

Depois de estacionar, caminhou alguns metros dentro do território hondurenho, em um gesto simbólico, e voltou. Helicópteros militares hondurenhos sobrevoavam a zona.

"Estamos esperando que os militares levantem os obstáculos que estão pondo (...) Pedi comunicação com o Estado Maior para ver se podemos solucionar isso", disse Zelaya, acrescentando que buscava um diálogo com o governo formado após o golpe que o depôs, em 28 de junho.

Zelaya disse que o governo interino cometeria "um grave erro" ao prendê-lo, porque "provocariam mais indignação no povo".

Antes da chegada de Zelaya, dezenas de hondurenhos que se dirigiam ao seu encontro na fronteira foram dispersados com gás lacrimogêneo, quando tentavam romper um cerco militar próximo à localidade de Las Manos, segundo uma testemunha da Reuters.

"Não temos armas, mas estamos dispostos a agarrar pedras ou paus para passar a receber Zelaya", disse o manifestante Merlin Roberto Rivera, um camponês de 24 anos de Olancho, Estado natal do presidente deposto.

Muitos hondurenhos temem que seu regresso gere violência. O governo interino antecipou para as 12h o toque de recolher da sexta-feira na fronteira com a Nicarágua, para vigorar até as 6h de sábado.

A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, classificou de "temerária" a tentativa de Zelaya de voltar a Honduras. "Isso não contribui ao emplo esforço que se tem feito para restaurar a ordem democrática e constitucional dentro da crise que vive Honduras", disse ela.

Zelaya, um empresário madeireiro liberal que na metade do seu mandato deu uma guinada à esquerda e se aproximou do presidente venezuelano, Hugo Chávez, foi expulso da presidência e do país depois de irritar as elites com uma tentativa para se reeleger.

Zelaya disse que aguardava contatos que lhe permitissem entrar pacificamente no país, mas o presidente interino de Honduras, Roberto Micheletti, reiterou sua intenção de deter o presidente deposto, sob a acusação de ter violado a Constituição.

No último dia 5, militares impediram o pouso em Tegucigalpa de um avião venezuelano no qual Zelaya tentava voltar ao país. Um homem morreu nos confrontos daquele dia entre forças de segurança e partidários do governo deposto.

Zelaya disse que, se desta vez não conseguir entrar pela fronteira de Las Manos, terá a seu dispor helicópteros para tentar entrar pela fronteira com a Guatemala ou El Salvador.

DECISÃO APRESSADA

Sindicatos e adversários do golpe realizam na sexta-feira novos bloqueios rodoviários em Tegucigalpa, no segundo dia de uma greve geral que até agora transcorre sem incidentes.

Zelaya decidiu voltar após dar por encerradas as negociações mediadas pelo presidente da Costa Rica, Oscar Arias, que não conseguiu convencer o governo provisório a restituir o governo eleito.

O retorno de Zelaya, desafiando a ordem de prisão, significa um revés para os EUA na disputa contra Chávez pela influência na América Latina.

O secretário-geral da Organização dos Estados Americanos, José Miguel Insulza, disse que a decisão de Zelaya era "apressada", e lembrou que o governo interino ainda não comunicou oficialmente a sua rejeição do acordo proposto por Arias, que deve ser discutido na segunda-feira pelo Congresso de Honduras.

Mas a vice-ministra de Relações Exteriores do governo interino, Martha Alvarado, disse à Reuters que a volta de Zelaya ao poder está fora de discussão.

Zelaya, que ainda tinha sete meses de mandato, reiterou por sua vez que o diálogo está esgotado e que já não tem nada a perder.

Os presidentes dos países do Mercosul decidiram na sexta-feira desconsiderar qualquer ato que emane do governo interino de Honduras, inclusive a celebração de eleições, o que amplia a pressão pela restituição de Zelaya.

(Reportagem adicional de Edgard Garrido e Sean Mattson em Las Manos, Marco Aquino, Gustavo Palencia e Juana Casas em Tegucigalpa, Rodrigo Martínez em Santiago e Nelson Bocanegra em Bogotá)

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