Wyoming, a nova fronteira?

No século 19, milhares de americanos decidiram se lançar na viagem de suas vidas. Nas diligências e depois nos trens, venciam quilômetros e quilômetros rumo ao oeste, na esperança de construir sua fortuna.

BBC Brasil |

Fiz o caminho contrário - vim do oeste, de Salt Lake City, mas, da mesma forma, foi impossível não me sentir um desbravador atravessando a fronteira de Utah e entrando em Wyoming.

A estrada adentra uma área de planícies e colinas baixas, cor ocre, cinza e branco - o branco da neve acumulada.

Os outdoors à beira da estrada começam a usar com freqüência a imagem dos vaqueiros para vender seus produtos. Paramos num posto e, numa loja de conveniência, os cartões postais à venda mostram pessoas com chapéus e a cavalo.

Voltamos para a rodovia e logo surge a linha do trem. Perto de Rawlins, as planícies são vastas... e estão todas cobertas de neve. Não há plantações à vista. O gado deve estar todo recolhido por causa do frio.

Os ecos do cinema são muitos nesta terra. Os Brutos também Amam, um clássico para ninguém botar defeito, foi filmado ao norte daqui. As planícies com a neve são as mesmas do filme.

De repente, no carro, alguém me acorda da minha divagação: "ei, olha, Laramie", diz José, um dos meus colegas de viagem, chamando a atenção para uma placa que diz a distância até a tal cidade. "Isso sim me faz lembrar de faroeste, esse nome, Laramie".

Ele deve estar se lembrando do filme The Man from Laramie, que em português foi traduzido como Um Certo Capitão Lockart, estrelado por James Stewart como o tal homem que veio da cidade no Wyoming. Filmaço.

O tempo das diligências e dos saloons ficou no passado, mas Wyoming está vivendo a sua nova onda de desbravadores. Considere os fatos: o Centro de Estudos da Imigração, uma organização americana, divulgou um relatório em que aponta Wyoming como o Estado em que houve o maior crescimento porcentual da população de imigrantes entre 2000 e 2007: 180%.

Em Rawlins, os hispânicos em 2000 correspondiam a 21% da população, acima da média americana na época (12,5%).

Em 2000, a população total da cidade era de cerca de 8,5 mil, e hoje estima-se que tenha cerca de 9 mil moradores.

Não há sinais de que os latinos tenham diminuído nesses últimos anos. Ao redor da cidade, há campos de prospecção de petróleo que estão sedentos por mão-de-obra. E onde há empregos sobrando, há imigrantes.

A chegada da equipe da BBC foi a grande notícia do dia na cidade. Não estou exagerando - o Daily Times, o principal jornal da cidade, estampou como uma das manchetes de sua primeira página que a BBC estava vindo para a cidade.

Encontramos dois repórteres do jornal num restaurante mexicano da cidade, o Rose's Lariat.

Num dia de muito frio, em que a neve cobria todas as casas, o local certamente era um dos mais agitados da cidade, atraindo hispânicos e não-hispânicos com seus tacos.

Patrícia Perez, a dona do estabelecimento, nos recebe com o sorriso de quem está tranqüila com a vida.

Perguntamos a ela o que ela gostaria de pedir ao próximo presidente dos Estados Unidos. Até agora, a maioria dos hispânicos a que fizemos essa pergunta responderam algo relacionado à imigração.

Mas Patrícia pensa, titubeia, e enfim fala algo que afeta todos os americanos, independentemente da origem étnica.

"O que desejaria pedir é que ele tirasse todos os soldados do Iraque, e que eles voltem com saúde para suas casas".

Diz que não tem parentes militares, mas que ainda assim divide com as famílias a dor da morte dos seus filhos.

Descendente de imigrantes, Patrícia nasceu no Novo México e veio ainda bem nova para Wyoming - seguindo o caminho de tantos outros hispânicos que foram para o norte, como os que criaram em Pasco, Estado de Washington, um pequeno México.

Quem sabe eles também construam aqui em Wyoming sua fortuna como os pioneiros do velho oeste?

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