Wmm

Noite de 20 para 21 de junho. Solstício de verão.

BBC Brasil |

Druidas e outros doidos varridos entre as pedras de Stonehenge.

4 e 58 da manhã deste horário de verão britânico e o sol bateu o ponto direitinho. Feito um trem na Grã-Bretanha dos anos 30. Poucas prisões, quase que a polícia não baixou o cacete.

Nunca entendi a razão do bafafá. Assim como não sei direito o que quer dizer bafafá e qual sua origem etimológica.

Parece, no entanto, não ser lá grande coisa. Uma vez presos os druidas, ou simples hippies (que ainda os há), nenhum deles foi entregue a reverendos e pastores de qualquer igreja devidamente reconhecida pelo governo. Nem presbiterianos nem anglicanos tiveram que passar bala neles.

A discussão continuará. Deve ou não a polícia intervir nos dois casos anuais de solstício (o próximo será o de inverno) ou não será melhor trazer as tropas que servem no Afeganistão para lidar com druidas e outras espécies reconhecidamente nocivas ao bem-estar comum?
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Para não perder o hábito: entrego o endereço eletrônico de sítio que considero digno de atenção e de fácil entendimento para o brasileiro mediano com conhecimentos rudimentares da língua inglesa: www.iamneurotic.com.

Truc sensas conforme se dizia na época de Olavo Bilac e Manuel Bandeira. Cada um e todo mundo pode dar uma chegada lá e postar (não é assim que se diz?) exemplos de suas próprias neuroses.

Em seguida, ir dar uma voltinha, fingir ler um livro, assistir um pouco de televisão e, aí então, voltar a conferir para ver se alguém tinha algum comentário a fazer, mesmo desinteressante. A patuléia eletrônica não perdoa.

Comentar é sua sina, sua vida, seu prazer. Uma maneira barata de ver o nome impresso em letra de forma, ainda que fugaz, externando palpite, opinião ou julgamento solene. É uma variante da única paixão que nos motiva nos dias atuais: a celebridade.

Não podemos todos ser uma Naomi Campbell a ter ataques de nervos e agressões generalizadas para depois, no tribunal, pegar uma multinha ridícula, pagar indenizações michurucas e aí então prestar 200 horas de serviços comunitários limpando latrina. Não podemos ser Naomi. Mas devemos tentar.

Lá, no tal sítio dos neuróticos, você encontrará, como eu encontrei, gente com medo de pontinhos pretos e figurinhas que só conseguem comer biscoitos de 2 em 2.

Todos os dias, há pelo menos umas 10 neuroses confessas. É de se esperar que sejam todas verdadeiras e não apenas gente querendo se fazer de interessante. Meu neurótico predileto, até agora, é o cara que às 07h47 da manhã e às 07h47 da noite, como se tomado por minúsculos e inexplicáveis solstícios, se vê impelido a exclamar em voz alta a palavra "Boeing", como no avião aquele.

Isto já causou problemas ao indivíduo em questão e, afirma ele, mesmo dormindo, como se tivesse um despertador interno, manda lá voar um altissonante "Boeing".

Tive uma bruta vontade de mentir eletronicamente uma neurose. Jamais confessar, como o faço aqui e agora, desejar morte instantânea às mocinhas que caminham sorrindo e falando em telefones celulares pelas ruas. Talvez inventar que os solstícios, mesmo que apenas duas vezes por ano, me deixem em estado de exacerbação erótica.

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Segunda-feira e, pontual como um solstício, aí está Wimbledon de novo, por duas semanas. Já foi esporte nobre com apreciadores à altura. Hoje, como tudo e todos mais, encontra-se em estado de declínio.

Saque e violência substituíram virtuosismo e elegância, que reinavam nos áureos tempos de nossa Maria Esther Bueno, imortalizada como simplesmente Maria Bueno no panteão situado na sede do All England Lawn Tennis and Croquet Club, para lhe dar o nome verdadeiro e completo, que rege sobre as 20 quadras da mais verde e bem tratada grama do mundo.

A platéia é pobre, barulhenta e mal cheirosa. O desodorante não chegou a patrocínio de torneio algum de tênis, muito menos este de Wimbledon. Chato é que o estádio, chamemo-lo assim, fica no ponto final da linha de metrô que utilizo. Por tabela, e com efeito, sofro os desconfortos que os torcedores causam, sem conseguir me interessar pela sanguinolência e grunhição sacal (literalmente) daqueles que o praticam.

No domingo, uma equipe de repórteres do The Sunday Times revelou a possibilidade mais que real de há alguns anos reinar a tramóia da grossa entre apostadores e tenistas.

Resta-me o consolo de saber que, desde 1936, que os ingleses, ou britânicos, não emplacam uma erguida de taça do outrora prestigioso torneio. Foi Fred Perry o autor da façanha. Na Copa teve seu nome devidamente inscrito. Depois, mesmo dando apressadamente passaporte britânico a canadenses, feito Greg Rusedsky, é vexame após vexame.

Nada que se compare ao "ídolo das multidinhas", Tim Henman, cognominado - sabe-se lá por que artes ufanistas - de "O Tigre", já que nunca chegou às finais e dá para se contar numa falanginha os campeonatos que abocanhou. Só coisas como o Torneio de Botsuana e por aí afora..

Todos nós, ou todos eles ou vocês, precisam de uma celebridade e, por uns tempinhos, torcer por alguém ou alguma coisa. Neste ano, desponta para o anonimato e a inglória o escocês Andy Murray, que, espero e faço votos, caia fora pelo menos no segundo obstáculo ou muro (sim, a maior parte dos players são verdadeiros muros de tijolos).

Melhor: que o vexame se dê na segunda barreira. Para melhor gozar do desapontamento que cerca toda essa euforia da mídia e da torcida organizada. Há uma arte tortuosa na torcida organizada.

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Já que não há mais nada a fazer depois desses solstícios todos, volto a ensinar, mais uma vez, como um neurótico gritando "Boeing", a pronúncia correta do tradicional local onde se darão essas chatices e vexames todos.

Wimbledon inexiste. Feito a "Lóndon, Lóndon", do Caetano. Não são três sílabas nem palavra proparoxítona. Também não é, como durante anos tentei explicar, "wmbdn", uma palavra só, uma única sílaba, pronunciada com a boca quase fechada.

Isso é da época de Fred Perry e Maria Bueno, quando havia arte na prática do tênis. O certo mesmo é "wm". Exagerando um pouco, talvez com dois Ms no final. Assim: "wmm".

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