WikiLeaks rondou discussões da Cúpula que blindou a região contra golpes

No encontro, assinaram a "cláusula democrática", que prevê suspender países onde seja violada a institucionalidade democrática

EFE |

O escândalo diplomático provocado pelos vazamentos do WikiLeaks marcou neste sábado o encerramento da 20ª Cúpula Ibero-Americana, que será lembrada como a reunião que blindou a região contra as tentativas de golpe. Os chefes de Estado e de Governo ibero-americanos deram neste sábado um salto qualitativo com a assinatura da chamada "cláusula democrática", que prevê suspender do mecanismo ibero-americano os países onde seja violada a institucionalidade democrática.

Embora a cláusula seja mais suave do que as vigentes em outros organismos regionais, como o Mercosul e a Unasul, os presidentes não minimizaram a importância deste acordo, um dos 13 assinados ao término da Cúpula de Mar del Plata. Para o equatoriano Rafael Correa, esta reunião marca "um antes e um depois" para a história da região.

"Estamos concretizando ações para que nunca mais em nossa América aqueles que não conseguem nos vencer nas urnas tentem conspirar contra Governos legitimamente eleitos". "É necessário que estejamos todos dispostos a levar a resolução adiante com muita firmeza, cortando todo tipo de vínculo com aqueles países que tentem ou consigam destituir a democracia" disse a anfitriã, a argentina Cristina Fernández de Kirchner. Para o guatemalteco Álvaro Colom o documento pode contribuir para assegurar a estabilidade política na América Central.

"Os problemas da democracia só se resolvem com mais democracia", disse o salvadorenho Mauricio Funes, que pediu à cúpula que não "castigue" o povo hondurenho pelo golpe de junho de 2009. Além disso, fez um apelo ao Governo de Honduras, liderado por Porfirio Lobo, o único que não foi convidado a Mar del Plata, a reconstruir sua democracia para possibilitar o retorno de Manuel Zelaya ao país.

O outro tema do encontro, o escândalo da diplomacia americana, foi incluído na cúpula na véspera de sua abertura e chegou neste sábado ao plenário por meio dos países da Alba (Alternativa Bolivariana para as Américas), cujos presidentes, curiosamente, não compareceram à reunião de Mar del Plata.

Os rumores que apontavam para a aprovação de uma moção crítica contra Washington não foram concretizados, embora Rafael Correa tenha admitido neste sábado que "não foi incluída (nenhuma resolução), mas se discutiu o assunto". No plenário, o primeiro a abrir o fogo foi o chanceler cubano, Bruno Rodríguez Parrilla, que denunciou que os vazamentos do WikiLeaks "desnudam a diplomacia imperialista", "transparecem suas verdadeiras intenções" e a "grosseira intervenção em nossos assuntos internos".

"Hão de restar poucos ingênuos neste mundo que não tenham entendido que por trás dos sorrisos e palavras amáveis do presidente dos Estados Unidos não houve nenhuma mudança de política nem ética", afirmou o ministro.

Na mesma linha, o chanceler venezuelano, Nicolás Maduro, opinou que os vazamentos estão revelando "uma imensa operação de intriga política, de espionagem, de busca de influência por via ilegítima" e desvelam a "perseguição permanente da revolução bolivariana, contra o povo venezuelano". O vice-presidente boliviano, Álvaro García Linera, atacou a "diplomacia imperialista de espionagem e conspiração" dos EUA e fez um apelo aos países da região, especialmente à Argentina, que não se dividam.

"A transparência é a melhor defesa contra a conspiração. Não temos nada a ocultar. Não permitamos que estas informações, essa maneira de proceder aumentem as distâncias entre nós, não podemos nos dividir", afirmou García Linera, dirigindo-se a Cristina Fernández de Kirchner. García Linera se referiu, mas sem mencionar expressamente, aos documentos vazados que revelam a vontade de Cristina de colaborar com os Estados Unidos em sua estratégia na Bolívia e aos qualificativos de "pessoa difícil" que teria dirigido ao presidente Evo Morales, ausente na reunião de Mar del Plata. A cúpula foi marcada também pelas significativas ausências de José Luis Rodríguez Zapatero, o presidente do Governo espanhol; o venezuelano Hugo Chávez, o nicaraguense Daniel Ortega e o cubano Raúl Castro, além do hondurenho Lobo.

Vários dos presidentes anteciparam o retorno a seus respectivos países, o que fez com que a cúpula fosse encerrada sem os discursos dos presidentes do Uruguai, José Mujica, Chile, Sebastián Piñera, e Peru, Alan García. A reunião teve um forte teor emocional devido às homenagens ao ex-presidente da Argentina Néstor Kirchner, marido e antecessor de Cristina, e Luiz Inácio Lula da Silva, que deixará a Presidência do Brasil em janeiro.

    Leia tudo sobre: documentos diplomáticosEUAwikileaks

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG