WikiLeaks destaca tradição da escrita diplomática

Histórico de conteúdo de mensagens inclui assassinato de czares, bases filosóficas para a Guerra Fria e análise sobre líderes

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A expedição diplomática foi direto ao ponto. "Imperador Morto", telegrafou John Foster da Rússia para o Departamento de Estado dos Estados Unidos para informar o assassinato do czar Alexandre II em 1881.

Depois houve o Longo Telegrama de 1946, um tratado enviado de Moscou por George Kennan (contendo um pedido de desculpas por "esta sobrecarga do canal telegráfico"), que estabeleceu as bases filosóficas para a Guerra Fria.

Hoje, a divulgação de dossiês diplomáticos americanos pelo WikiLeaks revela os herdeiros de uma tradição fértil na escrita diplomática, um exército de enviados geralmente desconhecidos cujas mensagens de antigas capitais imperiais e postos avançados remotos ajudam a moldar a política externa americana.

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O republicano Charles Mathias (E) e Elliot Levitas (C) conversam com o então embaixador soviético Anatoly Dobrynin, em jantar de novembro de 1983
Para os Estados Unidos, a divulgação do WikiLeaks é um constrangimento grave. Mas há uma fresta de esperança na revelação, ou lembrança, de que os diplomatas americanos, muitas vezes criticados em casa e no exterior, têm o dom das línguas e dos detalhes, são capazes de realizar análises apuradas, manter um senso de humor apurado e, ocasionalmente, irônico.

Os dossiês despem as imagens estereotipadas dos diplomatas americanos, ou talvez dos diplomatas de qualquer país, como burocratas insípidos, socialites mimados ou figuras anônimas com vozes abafadas por trás de uma janela de vidro espessa na seção de vistos.

"A imagem que impera mistura ternos listrados e coquetéis", lamentou Peter Eicher, um ex-diplomata americano e editor do livro Emperor's Dead and Other Historic American Diplomatic Dispatches (A Morte do Imperador e Outros Despachos Americanos Históricos, em tradução livre).

Protocolo

Tais percepções existem porque muito do que os diplomatas fazem acontece de forma discreta, em conversas privadas e duras negociações mascaradas pelo verniz do protocolo. Mesmo assim, os dossiês confirmam que alguns diplomatas simplesmente não consegue resistir a uma dose de fofocas maliciosas.

Algumas das observações mais divertidas vieram da embaixada no Cazaquistão, onde a secretária de Estado Hillary Rodham Clinton esteve, desconfortavelmente, em visita esta semana. Uma missiva de 2008, sobre um jantar oferecido pelo magnata Aleksandr Mashkevich a dois congressistas dos Estados Unidos em visita ao país reclama da carne cozida e macarrão.

"Não está claro no que Mashkevich está gastando seus bilhões, mas certamente não é em talento culinário", escreveu um diplomata. "O vinho, pelo menos, era de certa qualidade com garrafas de um razoavelmente bom francês abertas para os convidados".

Os dossiês rotularam o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, como "irresponsável" e “festeiro”. Um de 2004 citou contatos relatando que o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, tinha contas bancárias na Suíça – o que Erdogan chamou de difamação motivada por "ódio pessoal" por parte de um ex-embaixador.

No entanto, um dossiê de 2010 de Ancara revela a complexidade da Turquia, país membro da Otan e candidato à União Europeia, com um governo inspirado no islã que tem procurado laços mais robusto nos Balcãs e no Oriente Médio. O país tem se desviado da linha ocidental em seus estreitos laços com o Irã e duras críticas a Israel.

"Será que tudo isso significa que o país está se tornando mais concentrado no mundo islâmico e sua tradição muçulmana na sua política externa? Absolutamente", diz o dossiê. "Isso significa que ele quer ou vai 'abandonar' a sua orientação ocidental tradicional e sua vontade de cooperar com a gente? Absolutamente não".

A leitura é controversa em sua descrição do "desejo especial por uma retórica dramática e destrutiva" por parte dos dirigentes políticos da Turquia, bem como da "postura neo-Otomana" e "ambições Rolls Royce, de recursos Rover" do país.

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George F. Kennan (D), então embaixador americano na Rússia, cujo telegrama estabeleceu as bases filosóficas para a Guerra Fria
Christopher Dell, embaixador dos EUA no Kosovo, escreveu uma avaliação sóbria do Zimbábue antes de deixar o principal posto diplomático no país em 2007, descrevendo a oposição como "longe do ideal" e o presidente Robert Mugabe como "mais inteligente e mais cruel" do que seus rivais políticos.

"Eu não sei se devo ficar feliz ou chateado que a reação parece ser ‘Deus, eles realmente sabem o que estão fazendo’", Dell escreveu em sua página no Facebook, depois que o WikiLeaks divulgou os arquivos na internet.

Figuras literárias que serviram como diplomatas norte-americanos incluem Nathaniel Hawthorne, Washington Irving e James Fenimore Cooper, os quais foram enviadas para a Europa no século 19. O poeta e ensaísta James Russel Lowell fez observações incisivas durante uma cerimônia no palácio real na Espanha.

"Foi um espetáculo muito pitoresco e ainda assim tão comicamente parecido com uma cena de Cinderela que tinha um forte sabor de irrealidade", escreveu ele em 1878. "Foi o retorno do passado, que assim caracterizou uma das doenças crônicas da Espanha".

Mais tarde, Lowell se juntou a outros diplomatas em um jantar oferecido pelo rei: "Um jantar onde se é plantado entre dois totais estranhos e se deve divertir em uma língua estranha, irá, espera-se, contar a nosso favor no próximo mundo".

Dossiê

Os dossiês modernos começam a ser escritos quando uma seção política da embaixada informa o Departamento de Estado sobre os tópicos que planejam relatar – por exemplo, a oposição política do país – e depois Washington autoriza o plano. Uma vez entregue, os dossiês circulam entre as agências na capital americana.

"Muitas dessas coisas não são lidas, razão pela qual, não muito diferente do mundo das notícias, as pessoas começam a escrever títulos mais interessantes. Pode-se incluir um pouco mais de humor", disse Christopher Hill, antigo negociador dos Estados Unidos para os Bálcãs e a Coreia do Norte, bem como ex-embaixador dos Estados Unidos no Iraque e Coreia do Sul. Ele agora é diretor da Escola de Estudos Internacionais Josef Korbel da Universidade de Denver, no Colorado.

"Como embaixador, eu sempre dizia: 'O que vocês estão fazendo aqui? Vocês deveriam estar conversando com as pessoas'", disse Hill. "As pessoas não te dizem coisas interessantes pelo telefone. Elas vão te dizer isso em um café ou em seu escritório ou em um passeio por algum lugar".

Ele descreveu os possíveis danos do vazamento usando uma comparação com o jornalismo. "Seria como se todas as fontes do New York Times de alguma forma fossem estampadas na primeira página do Washington Post", disse Hill. "As pessoas relutam o suficiente em entregar informações a um diplomata americano e agora vai ser ainda pior".

Festas diplomáticas são mais do que uma oportunidade para saborear champanhe e mordiscar hors d'oeuvres. Elas podem ser um caminho vital para a troca de informações com governos estrangeiros de uma forma que seria impossível em uma situação mais rígida, onde todos estão ladeados por assessores e assistentes.

"Se você esbarra no ministro das Relações Exteriores, pode oferecer de maneira muito informal uma mensagem por vezes não muito fácil, às vezes uma mensagem de cautela... Você não quer ter uma reunião formal em torno de você", disse Brandon Grove, embaixador dos Estados Unidos no Zaire durante a presidência de Reagan e autor de Behind Embassy Walls: The Life and Times of an American Diplomat (Atrás dos Muros da Embaixada: A Vida e a Época de um Diplomata Americano, em tradução livre).

Grove disse que os despachos diplomáticos são divididos em categorias: o "relato direto", por exemplo, de uma reunião com um oficial; o dossiê sobre um evento como uma eleição, escrito do ponto de vista dos interesses nacionais dos Estados Unidos; o resumo analítico, muitas vezes criado pelo chefe da missão; e o dossiê de "previsão", que recomenda uma ação. Apenas o embaixador tem direito a escrever na primeira pessoa, uma técnica que chama a atenção dos cansados oficiais responsáveis por ler inúmeros documentos em Washington.

"Um embaixador usa a palavra 'eu' com parcimônia", disse Grove. "Ela é uma moeda valiosa".

Engajamento

O Departamento de Estado vê um reflexo positivo, observando que a divulgação dos dossiês mostra os diplomatas americanos em trabalho. "O que você vê em todo o contexto destes documentos são diplomatas dos Estados Unidos totalmente engajados em todo o mundo", disse Philip J. Crowley, secretário-assistente para o bureau de assuntos públicos. "E isso não vai mudar".

Alguns dos mais célebres cidadãos americanos relataram alguns dos eventos mais épicos do mundo. Thomas Jefferson escreveu – e sim, os despachos eram escritos à mão antigamente, mesmo antes do termo "dossiê" ser adotado com a transmissão através de "cabos" – sobre a tomada da Bastilha em 1789, em Paris, e John Quincy Adams atualizou Washington sobre a retirada de Napoleão de Moscou, no inverno de 1812.

"Os arquivos diplomáticos não foram amplamente garimpados e estão cheios de pepitas", disse Eicher. "O material que está sendo feito agora não é tão diferente do que era feito na época".

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