Wikileaks: China está frustrada com a 'mimada' Coreia do Norte

Segundo documentos diplomáticos que foram vazados, Pequim admite a reunificação coreana sob o comando da Coreia do Sul

iG São Paulo |

Novos documentos divulgados nos sites dos jornais britânico Guardian e americano New York Times sugerem que autoridades chinesas estão perdendo a paciência com a Coreia do Norte, sua tradicional aliada. Autoridades graduadas de Pequim descreveram o regime de Pyongyang como se comportando como uma "criança mimada".

De acordo com comunicações diplomáticas reveladas pelo site Wikileaks, o ex-vice-chanceler sul-coreano Chun Yung-woo disse no início deste ano que autoridades chinesas lhe disseram que a Península Coreana deveria ser reunificada sob o controle de Seul.

Os funcionários chineses teriam dito que a China daria pouco valor à Coreia do Norte como um Estado-tampão entre o território chinês e a Coreia do Sul, aliada dos EUA.

As revelações estão em meio às mais de 250 mil comunicações entre embaixadas e outros canais diplomáticos americanos aos quais o site Wikileaks teve acesso e começou a vazar no domingo.

A divulgação ocorre em meio às polêmicas envolvendo o programa nuclear norte-coreano e o recente ataque a uma ilha sul-coreana perto da fronteira, que deixou quatro mortos na semana passada .

Nesta segunda-feira, a Coreia do Norte confirmou ter milhares de centrífugas operando em uma usina de enriquecimento de urânio . Os norte-coreanos dizem que a usina é para a produção de energia nuclear para uso civil. Não se sabe se as centrífugas poderiam produzir também material para a fabricação de armas nucleares.

Nova geração

Um dos documentos sobre a Coreia do Norte divulgados na segunda-feira pelo Wikileaks relata um encontro em um almoço em fevereiro de 2010 entre a embaixadora dos Estados Unidos em Seul, Kathleen Stephens, e o ex-vice-ministro das Relações Exteriores da Coreia do Sul Chun Yung-woo.

Chun teria dito que uma nova geração de líderes chineses não considera mais a Coreia do Norte como um aliado útil ou confiável, e não arriscaria um novo conflito armado na península.

Chun afirmou à embaixadora americana que a Coreia do Norte “já entrou em colapso econômico e entraria também em colapso político dois ou três anos após a morte do líder Kim Jong-il”, apesar de seus esforços para obter ajuda chinesa e para assegurar a sucessão para seu filho .

“Ao descrever uma diferença de geração nas atitudes chinesas em relação à Coreia do Norte, Chun alegou que [nome apagado] acreditava que a Coreia deveria ser unificada sob o controle da República da Coreia”, disse.

Chun disse que as autoridades chinesas estavam “prontas para ‘enfrentar a nova realidade’ de que a República Democrática Popular da Coreia tinha agora pouco valor para a China como Estado-tampão – uma visão que ganhou força entre altos líderes da República Popular da China desde os testes nucleares norte-coreanos em 2006”.

“Chun argumentou que, na eventualidade de um colapso da Coreia do Norte, a China claramente não veria com bons olhos qualquer presença militar americana ao norte da zona desmilitarizada (na atual fronteira entre as Coreias)”, diz a mensagem da embaixadora.

“A China estaria confortável com uma Coreia reunificada controlada por Seul e ancorada nos Estados Unidos em uma ‘aliança benigna’ – desde que a Coreia não fosse hostil à China”, acrescentou Stephens.

‘Criança mimada’

Outra mensagem divulgada pelo Wikileaks revela que o vice-ministro chanceler da China, He Yafei, disse ao encarregado de negócios dos Estados Unidos em Pequim que a Coreia do Norte estava se comportando como uma “criança mimada” para chamar a atenção americana ao realizar testes nucleares em abril de 2009.

He disse que o governo norte-coreano queria “negociar diretamente com os EUA, e por isso estava agindo como uma ‘criança mimada’ para chamar a atenção do ‘adulto’”, escreveu o diplomata americano.
“A China por isso incentivou os Estados Unidos, ‘depois de algum tempo’, a começar a retomar os contatos com a Coreia do Norte”, afirmou.

Uma segunda mensagem de setembro de 2009 disse que He relativizou a visita do premiê chinês, Wen Jiabao, à capital norte-coreana, Pyongyang, dizendo ao subsecretário de Estado americano James Steinberg: “Nós podemos não gostar deles, mas eles são vizinhos.”

AFP
Ponte para nenhum lugar, exceto a metade do Rio Yalu, que separa cidades na fronteira da Coreia do Norte e da China, é acesa na chinesa Dandong (24/11/2010)
Ele disse que Wen pressionaria pelo abandono do programa nuclear e pela volta das negociações.
Poucos meses depois, o embaixador chinês no Casaquistão teria descrito o programa nuclear norte-coreano como “uma ameaça à segurança de todo o mundo”.

Uma mensagem da embaixada americana em Seul, de janeiro de 2009, cita funcionários do governo chinês dizendo que o presidente da China, Hu Jintao, deliberadamente “fingiu não ouvir” o presidente sul-coreano, Lee Myung-bak, quando ele perguntou se a China havia pensado sobre a situação política doméstica norte-coreana ou se tinha algum plano de contingência.

Conselho de Segurança

Outro documento indica que a China expressou aos EUA sua preocupação com a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas e advertiu que não aceitaria o Japão em uma futura ampliação.

Pequim bloqueou em 2005 a proposta de inclusão de Brasil, Alemanha, Índia e Japão como membros permanentes do Conselho de Segurança, mas desde estão os funcionários chineses são prudentes ao tratar do tema em público.

No comunicado divulgado pelo WikiLeaks, o vice-chanceler chinês diz a um diplomata americano que "se terminarmos com um 'P-10'", em referência a um Conselho de Segurança ampliado, China e EUA terão problemas". Segundo He Yafei, "seria difícil para o público chinês aceitar o Japão como um membro permanente" do Conselho de Segurança.

Após as revelações, o governo da China anunciou esperar que o vazamento não prejudique as relações entre Pequim e Washington e que os EUA administrem corretamente o assunto.

"Não queremos ver nenhuma perturbação das relações China-EUA após o vazamento dos documentos", declarou Hong Lei, porta-voz do Ministério das Relaçõnes Exteriores. "Esperamos que Washington administre corretamente o assunto", completou.

*Com BBC e AFP

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