Vulnerabilidade do sistema elétrico não é exclusividade do Brasil, diz especialista

A possível falha na transmissão de energia que provocou o blecaute da noite da terça-feira é o resultado da vulnerabilidade dos sistemas tradicionais de energia no mundo todo e não somente no Brasil, na avaliação do especialista canadense-britânico Walt Patterson, pesquisador associado da Chatham House (Instituto Real de Assuntos Internacionais), de Londres. É um sistema pensado há mais de cem anos, com grandes geradores remotos que necessitam de longas linhas de transmissão com um controle central, disse ele em entrevista à BBC Brasil.

BBC Brasil |

"A quebra de um único cabo é capaz de provocar uma sobrecarga que leve a um efeito dominó em todo o sistema."
Para Patterson, autor do livro Keeping the Lights On - Towards Sustainable Energy ("Mantendo as Luzes Acesas - Em Direção à Energia Sustentável", em tradução livre), mesmo países ricos sofrem com a mesma vulnerabilidade.

Ele cita grandes blecautes ocorridos em 2003 - nos Estados Unidos e no Canadá, em agosto, quando 55 milhões de pessoas foram afetadas, na Dinamarca e na Suécia, em setembro, com 5 milhões afetados, e na Itália, no fim de setembro, com 55 milhões afetados - como exemplo do problema.

"No caso do blecaute nos Estados Unidos, em 14 de agosto de 2003, o problema foi provocado por uma árvore que derrubou uma linha de transmissão e resultou em um efeito cascata", diz Patterson. "Em coisa de minutos, mais de 50 milhões de pessoas foram afetadas."
Distância
Grandes usinas de geração, como a de Itaipu, que exigem a transmissão de grandes quantidades de energia por longas distâncias, apenas pioram ainda mais a situação, em sua avaliação.

Para evitar o problema, o especialista sugere um sistema menos centralizado, "conectado de forma mais solta", com geração e transmissão mais próximas aos usuários.

"O que precisamos é de um sistema conectado de maneira diferente, que não dependa apenas de uma única máquina para seu funcionamento", diz.

Patterson observa que um problema desse sistema alternativo é seu custo maior do que o sistema tradicional, mas ele observa que isso funcionaria como um "seguro" contra possíveis blecautes como o da terça-feira no Brasil.

Para ele, não havia muito o que o governo brasileiro pudesse fazer em termos de prevenção para evitar o problema sem uma mudança completa no sistema de transmissão de energia.

"Pelas informações que tenho sobre o incidente, não creio que houve uma falha do governo brasileiro. Isso não é algo que acontece só no Brasil, também acontece nos países da OCDE (entidade que reúne os países considerados desenvolvidos)", diz.

Segundo ele, não existe nenhuma informação conclusiva sobre a possibilidade de o apagão da terça-feira e outros ocorridos em 2005 no Rio de Janeiro e em setembro deste ano, no Espírito Santo, terem sido provocados pelo ataque de hackers ao sistema informático de Furnas (empresa responsável pela transmissão de energia), como chegou a ser sugerido.

Mas ele diz que isso não seria impossível, já que a vulnerabilidade do sistema não existe somente em relação a acidentes, mas também a ações intencionais.

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