A vitória no referendo sobre o fim do limite à reeleição, no último domingo, fez com que o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, recuperasse parte do terreno perdido para a oposição, mas não foi suficiente para que ele possa radicalizar seu projeto de consolidação de um modelo socialista no país, na opinião de analistas políticos ouvidos pela BBC Brasil. Segundo eles, a aprovação da emenda por uma diferença de cerca de 1 milhão de votos em relação à proposta da oposição, fez com que Chávez recuperasse parte do capital político perdido no referendo de 2007 - quando um projeto de reforma constitucional foi rejeitado na urnas.

Mesmo assim, a margem ainda é pequena para que Chávez possa radicalizar, ainda mais em um momento em que o país está diante das possíveis consequências da crise econômica mundial.

"O governo obteve uma importante vitória, mas não o suficiente para permitir uma margem de manobra capaz de levar à radicalização de seu projeto", afirma o sociólogo Javier Biardeau, da Universidade Central da Venezuela.

Os números do referendo mostram que a sociedade venezuelana continua dividida.

Segundo o Conselho Nacional Eleitoral (CNE), com 94,2% das urnas apuradas, o "sim" levou 54,36% dos votos (mais de 6 milhões), o que fez com que a emenda constitucional fosse aprovada. Já a proposta do "não", defendida pela oposição, obteve 45,6 %, o equivalente a 5 milhões de votos.

Estes resultados apertados, na opinião de Javier Biardeu, farão com que Chávez seja obrigado a "administrar" sua vitória.

Segundo ele, apesar de fortalecido nas urnas, Chávez deverá enfrentar tempos difíceis como consequência da crise financeira internacional, que levou à queda nos preços do petróleo, origem de 94% das divisas que ingressam à Venezuela.

Por enquanto, o governo afirma ter como manter os gastos se utilizando das reservas de US$ 40 bilhões provenientes do excedente da renda petroleira.

Mas, caso a crise se estenda, economistas advertem que o governo seria obrigado cortar estes gastos, principalmente em programas sociais, o que afetaria diretamente a base de apoio do governo.

"Nos últimos anos, Chávez tinha o vento a seu favor, agora não", afirmou o analista político Carlos Romero.

Enquanto comemorava a vitória nas urnas, na noite do último domingo, Chávez deu indicações dúbias sobre os novos rumos de seu governo.

Ao mesmo tempo em que afirmou que a vitória abriu as portas para a implementação de um projeto socialista no país, ele foi cauteloso ao advertir que, em 2009, tratará de consolidar algumas políticas públicas, deixando para abrir "novas frentes" em 2010.

O líder venezuelano afirmou ainda que, entre as prioridades de seu governo, estarão o combate à insegurança, à corrupção, à burocracia e à ineficiência na administração pública - algumas das principais queixas da população.

"Se o governo não resolver esses problemas, enfrentará dificuldades em sua base de apoio", afirma Javier Biardeau.

Para o sociólogo, o apoio de grande parte dos eleitores chavistas está condicionado à uma maior eficiência do governo na solução dos problemas cotidianos e à ampliação dos espaços de participação política.

"Esses eleitores não se alinham à oposição, temem a volta da direita ao poder, mas condicionam esse novo respaldo (a Chávez) a respostas concretas", afirma.

E será no terreno da gestão pública que a oposição tentará recuperar espaços e consolidar uma via alternativa ao chavismo, primeiro para as eleições legislativas, em 2010, e logo depois para as eleições presidenciais, em 2012.

Para o analista político Daniel Hellinger, professor da Universidade de Webster, nos Estados Unidos, a "chave" para a oposição tentar vencer o chavismo será apresentar um projeto que corrija as falhas atuais, sem extinguir os programas sociais do governo Chávez.

"Se (os membros da oposição) governarem bem (os Estados e prefeituras que conquistaram), se conseguirem diminuir os crimes e melhorar a coleta de lixo, sem ameaçar as missões (programas sociais de Chávez), então irão se fortalecer. Caso contrário, perderão as eleições contra Chávez ou contra qualquer um que ele apóie", afirma Hellinger.

Mas antes da disputa presidencial em 2012, a oposição tentará recuperar espaços na Assembléia Nacional, controlada pela maioria chavista.

Em 2005, a oposição abriu mão do espaço no Parlamento ao não disputar as eleições para a casa, em uma tentativa fracassada de deslegitimar o pleito.

Segundo o sociólogo Javier Biardeau, as eleições parlamentares de 2010 serão primeira batalha da oposição para tentar fragilizar o governo antes da disputa presidencial.

"Se recuperar um espaço importante no Parlamento, a oposição poderá apostar na crise institucional. O Parlamento se converterá em uma zona de intenso conflito", afirma Biardeau.

Já para a corrida presidencial, a oposição terá quatro anos para consolidar uma candidatura, em meio às disputas internas entre os partidos Um Novo Tempo, do prefeito de Maracaibo, Manuel Rosales, e Primeiro Justiça, do recém-eleito governador do Estado de Miranda, Capriles Radonski.

Na opinião do analista Carlos Romero, outro desafio para a oposição é o de "neutralizar" a influência do que ele chama de "ala golpista".

"Esse grupo briga não só com o governo, mas também com setores dentro da oposição. (Eles) veriam de bom grado uma saída diferente da via democrática para derrotar o presidente", afirmou.

O editor do diário de oposição Tal Cual
, Teodoro Petkoff, afirmou em um editorial publicado nesta segunda-feira, que Chávez está livre para disputar um novo mandato, mas que será derrotado no próximo pleito presidencial.

"Podem comemorar hoje, mas no horizonte de 2012 o que começa a aparecer é o fantasma de uma derrota inevitável", afirmou.

Os eleitores da oposição, no entanto, ainda veem com incredulidade a alternativa que seus representantes pretendem consolidar.

"Eu não estou de acordo com a essa revolução chavista, mas, pelo menos, eles têm um líder e um projeto. E nós? Não temos nem uma coisa, nem outra", afirmou o eleitor Tulio Rodriguez, na fila de um centro de votação em Caracas, no domingo.

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