Vitória esmagadora do Sim à autonomia, em Tarija

O departamento de Tarija, que possui 85% das reservas de gás da Bolívia, aprovou neste domingo sua autonomia do poder central, com mais de 80% dos votos - segundo resultados de boca-de-urna - num referendo considerado ilegal pelo governo e que amplia a oposição regional ao presidente Evo Morales.

AFP |

A região de Santa Cruz (leste), motor econômico do país andino, já organizou um referendo sobre sua autonomia em maio, seguida, em junho, pelas províncias amazônicas de Pando e Beni (norte). O estatuto de autonomia administrativa e financeira foi aprovado em massa.

Hoje, em Tarija, as pesquisas estão dando ao "Sim" uma vitória de 80,3%, segundo a rede privada de televisão ATB. A mesma contagem dá 19,7% para o Não, com uma taxa de abstenção de 34,8%.

Na região de Bermejo, onde foi levantado um bloqueio a estradas, a abstenção chegou a 47,8%.

O anúncio dos resultados da ATB coincidem praticamente com os divulgados por outras redes de televisão, como Unitel (que dá 79% ao Sim e 21% ao Não) e PAT (80,2% ao Sim e 19,8% ao Não), e foi motivo de euforia na praça Luis de Fuentes, onde fica a sede da prefeitura de Tarija.

Na presença dos prefeitos de Santa Cruz, Beni, Pando e Cochabamba os moradores de Tarija realizam uma verdadeura festa com grupos musicais folclóricos.

Considerado ilegal pelo governo, o plebiscito que amplia a poderosa frente de oposição de quatro regiões rebeldes ao presidente Evo Morales finalizou às 16H00 locais (20H00 GMT), desenvolvendo-se em meio a tensões entre setores leais ao governo e organizações civis que apóiam as autonomias ante o centralismo de La Paz.

Localizada no extremo sul boliviano, fronteira com Argentina e Paraguai, Tarija, com 391.226 habitantes e 173.231 pessoas autorizadas a votar, concentra as segundas maiores reservas de gás da América do Sul, com 1,36 bilhão de metros cúbicos.

Depois do referendo de Tarija, responsável por cerca de 13% do PIB boliviano, ficará configurado o bloco autonômico formado por quatro regiões - em seguida às vitórias do "sim" em Santa Cruz, Beni e Pando.

O referendo deste domingo - como o realizado nas outras três regiões - não havia sido autorizado pelo máximo tribunal boliviano sendo considerado ilegal pelo governo Morales, pelo que não será reconhecido o resultado da consulta.

O clima começou a esquentar no sábado na normalmente tranqüila região de Tarija, com as organizações civis e camponesas de Yacuiba (281 km ao sudeste da capital regional) decretando bloqueios de estradas.

Na mesma cidade de Yacuiba, um atentado com dinamite contra uma rede de televisão provocou alguns danos materiais.

Um militar suspeito de ser o ator do atentado foi detido com armas e explosivos, segundo o promotor que investiga o caso.

O departamento, dirigido pelo prefeito de direita Mario Cossío, constitui a principal fonte de renda para o fisco, desde a nacionalização dos hidrocarbonetos, decretada em maio de 2006 pelo presidente Evo Morales.

As exportações de gás natural, principalmente para o Brasil (30 milhões de m3 diários) e Argentina (1,4 milhão de m3 por dia), o que significa para o fisco um ingresso anual de 2,3 bilhões de dólares - tem servido para o governo fortalecer a estatal petroleira YPFB e pagar bônus anuais a idosos e crianças com idade escolar.

Este referendo se desenvolve no momento no qual a Bolívia (9 milhões de habitantes) passa por uma grave crise política e social.

O diálogo está completamente bloqueado há meses entre o governo de Morales e a oposição conservadora do partido Podemos, aliado aos governadores de quatro províncias autonomistas, principalmente à florescente região de Santa Cruz.

Para tentar sair da crise, Evo Morales convocou para 10 de agosto um referendo nacional, pondo em jogo seu mandato de presidente, assim como o de vice-presidente e os de nove governadores regionais, entre eles seis que se opõem a sua política.

O país aparece cortado em dois: de um lado, o governo do presidente Morales que colocou sob o controle do Estado setores importantes da economia nacional como os hidrocarbonetos e pôs em prática uma política de redistribuição a favor dos camponeses quechuas e aymaras das regiões andinas mais pobres do país. De outro lado, os oponentes de direita e os empresários que criticam esta política anti-liberal que faz fugir os investimentos, principalmente, no setor energético.

País pobre do continente mas possuidor de riquezas minerais (estanho, ferro, cobre...), a Bolívia possui a segunda reserva de gás da América do Sul, depois da Venezuela.

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