Rio de Janeiro, 10 abr (EFE).- O drama no Rio de Janeiro e nos municípios vizinhos por causa dos deslizamentos de terra parece não ter fim, com a confirmação de 216 mortos até hoje, enquanto as equipes de buscas trabalham sem descanso para tentar encontrar vítimas sob os escombros.

Desde segunda-feira passada, quando começou o temporal que provocou a tragédia, houve dezenas de deslizamentos de terra em diferentes morros da Região Metropolitana do Rio. O mais grave deles ocorreu no Morro do Bumba, em Niterói, onde desde a noite de quarta-feira se concentra a maior parte dos trabalhos de resgate.

Quatro corpos foram encontrados hoje sob os escombros de terra e lixo, que caíram da parte alta do morro e destruíram cerca de 50 casas. Já são 31 mortos somente na comunidade do Bumba, erguida sobre um antigo depósito de lixo, o que, segundo especialistas, torna o terreno mais instável.

Baseadas em cálculos dos bombeiros, as autoridades acreditam que ainda pode haver entre 100 e 150 pessoas sob as toneladas de uma terra fétida pelo lixo em decomposição, que constantemente provocam náuseas às equipes de resgate.

Segundo os bombeiros, vários cães farejadores treinados no resgate de pessoas soterradas não puderam ajudar no resgate porque o cheiro de lixo desorienta o faro.

Cerca de uma dezena de escavadeiras retiram dia e noite a terra na base do morro e, quando esbarram em algum corpo, abrem espaço aos bombeiros para que o retirem.

A chuva que desde quinta-feira caía de modo intermitente na região deu espaço ao sol hoje, o que facilitou o trabalho das equipes de busca. No entanto, os meteorologistas advertiram que o tempo seguirá instável até terça-feira, com possibilidade de mais chuvas.

Entre os corpos encontrados hoje no Morro do Bumba estava o de uma criança de seis anos. O pai da criança, que acompanhava de perto as operações de resgate, entrou em estado de choque ao ser informado que tinham encontrado o filho sem vida junto ao corpo da sogra.

Na mesma área, uma mulher que procura há dias informações sobre 18 parentes que viviam no morro encontrou hoje seu pai, de 87 anos, que milagrosamente sobreviveu à tragédia.

Segundo os bombeiros, das 216 mortes registradas por deslizamentos de terra nos últimos cinco dias, 136 ocorreram em Niterói, 60 na cidade do Rio de Janeiro, 16 em São Gonçalo e as outras quatro em Petrópolis, Nilópolis, Paracambi e Magé.

O governador do Rio, Sérgio Cabral, voltou a visitar hoje o Morro do Bumba, onde disse que a situação é "calamitosa". Ele anunciou que mais de 200 famílias que vivem no Morro do Céu, também em Niterói, serão retiradas imediatamente do local pelo perigo de uma nova tragédia.

"Vamos tirar essas pessoas de lá o mais rápido possível", disse Cabral, que mencionou a possibilidade de expropriar os terrenos, se necessário.

Outras 250 casas precárias foram interditadas no Morro dos Prazeres, na capital, onde 25 pessoas morreram e cinco estão desaparecidas. Seus habitantes foram transferidos a escolas, igrejas e outros alojamentos improvisados.

Os desabrigados em todo o estado do Rio de Janeiro totalizam cerca de 50 mil. Diferentes setores da sociedade se mobilizaram para ajudá-los com doações de alimentos, roupa e remédios, entre outros artigos.

O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro anunciou que vai investigar a responsabilidade das autoridades para determinar se houve omissão para "identificar, controlar e fiscalizar" construções ilegais em áreas consideradas de risco.

Segundo denúncias da imprensa, vários prefeitos não só permitiram a expansão de favelas em áreas de risco mas alguns, como a atual Administração de Niterói, construíram escolas, creches e outras obras nessas áreas, com pleno conhecimento do perigo que corriam seus habitantes.

O temporal que castigou o estado do Rio se deslocou ontem para o Nordeste, onde causou sérias enchentes, mas sem causar vítimas.

Em Sergipe, o estado nordestino mais afetado, as chuvas provocaram danos em nove municípios e sérias enchentes em inúmeros bairros de Aracaju, segundo a Defesa Civil. EFE joc/sa

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