Vítimas de terremoto da Turquia sofrem com desorganização na ajuda

Em dia de mais três sobreviventes resgatados, primeiro-ministro culpa construções irregulares pelas ao menos 461 mortes no país

iG São Paulo |

Três dias após o terremoto de 7,2 graus de domingo , que deixou 461 mortos no leste da Turquia, sobreviventes sofrem com a demora e a falta de coordenação da ajuda. Dezessetes caminhões do Crescente Vermelha turco foram saqueados no centro da cidade de Van e em Ercis, antes que a ajuda pudesse ser distribuída. "Nossos 17 caminhões foram saqueados entre segunda e terça-feira", disse nesta quarta-feira Agmet Lutfi Aker, um funcionário da entidade humanitária.

AP
Soldados montam guarda do lado de fora de sede do governo enquanto manifestantes protestam contra falta de coordenação na ajuda após tremor no leste da Turquia
A informação surgiu em meio à notícia de que mais três sobreviventes foram retirados dos escombros deixados pelo tremor, que matou ao menos 461 e feriu mais de 1.350. Na terça-feira, cerca de 40 pessoas foram retiradas com vida dos prédios que entraram em colapso, incluindo um bebê de duas semanas , cujas mãe e avó também foram salvas. O pai da menina, porém, continua desaparecido.

De acordo com a EFE, a descoordenação na assistência e a falta de recursos fizeram com que algumas vítimas do terremoto vendessem as barracas enviadas para os desabrigados. "O problema principal é a falta de coordenação", disse um jornalista local que acompanha a situação nas cidades de Van e Ercis.

"Há gente chorando por uma barraca enquanto escutam pela rádio um ministro dizer que a ajuda chegou a todas as partes e não há nenhum problema", afirmou o repórter. Citando uma fonte militar anônima que responsabiliza a administração local pelo problema, o Hürriyet Daily News diz haver desabrigados que não receberam água e comida, com a distribuição da ajuda não sendo bem organizada.

O descontrole na distribuição de ajuda chegou ao ponto de algumas famílias receberem três ou quatro barracas para as revenderem àqueles que não têm nenhuma e suportaram as baixas temperaturas da noite ao redor de fogueiras. A Prefeitura de Van, nas mãos de uma partido favorável à minoria curda local, disse que o governo provincial não lhe permite participar dos trabalhos de resgate e de atendimento às vítimas.

Na terça-feira, segundo a Associated Press, alguns sobreviventes desesperados disputaram a ajuda e bloquearam seu embarque enquanto um abalo secundário de 5,7 graus desatou um grande pânico que causou um tumulto de várias horas em uma prisão de Van, localizada a 90 km ao sul de Ercis. Nesta quarta-feira, autoridades transferiram cerca de 350 presos para outras cidades, depois que os detentos, exigindo que fossem libertados, atearam fogo nos colchões e iniciaram uma revolta no local.

Construções irregulares

Sem dar grande relevância às críticas, o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, reconheceu alguns erros logísticos. "Houve erros na distribuição das barracas nas primeiras 24 horas, reconhecemos. Em circunstâncias similares, essas coisas podem acontecer no mundo todo", disse.

Além disso, Erdogan responsabilizou nesta quarta-feira construções irregulares pelo número elevado de mortos, prometendo derrubar todos os edifícios erguidos sem licença e que não estejam preparados para suportar tremores. "Apesar dos terremotos anteriores, não agiram. Vendo os escombros, podemos comprovar a má qualidade dos materiais. O cimento se transformou em areia. Os municípios, as empreiteiras e a fiscalização deveriam perceber que essas negligências são comparáveis a cometer um crime", afirmou.

Erdogan prometeu se encarregar do problema contra as construções irregulares, embora seja uma medida impopular para o governo. De acordo com ele, o Executivo ordenará derrubar todos os "gecekondu", que são bairros de casas construídas pelos próprios moradores sem permissão e normalmente em terrenos de propriedade estatal, onde mora mais da metade da população urbana da Turquia, segundo alguns estudos.

"Se for preciso, utilizaremos dinheiro do orçamento para expropriar esses edifícios tipo 'gecekondu' ou construídos sem licença. Seja qual for o preço, apesar dos problemas para os votos. Se temos de escolher, preferimos perder o governo a continuar com esse panorama", disse.

Ajuda externa

O governo turco decidiu aceitar ajuda externa depois que as autoridades de emergências decidiram que milhares de sobreviventes precisarão de casas pré-fabricadas para suportar o inverno na região montanhosa.

Num primeiro momento, Ancara afirmou que só aceitaria ajuda do exterior após investigar o impacto dos danos ocasionados pelo tremor. De acordo com um fonte do Ministério de Relações Exteriores, o país pediu nesta terça-feira tendas e moradias pré-fabricadas a mais de 30 países, incluindo Israel, com o qual tem uma tensão diplomática desde maio de 2010, quando uma ofensiva israelense deixou nove ativistas turcos mortos em uma flotilha com ajuda humanitária para o território palestino da Faixa de Gaza.

A assistência poderia representar um primeiro passo para a melhora das relações bilaterais entre os dois países. Ancara exige desculpas e indenizações às famílias das vítimas por parte de Israel, que rejeita as reivindicações.

*Com EFE, Reuters, AP e AFP

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