DUBLIN - Vítimas de estupros e rituais de espancamento em escolas católicas marcharam silenciosamente nesta quarta-feira até o Parlamento irlandês, carregando sapatos de crianças e vestidos com fitas brancas, simbolizando a juventude perdida.

AP
Protesto silencioso foi realizado nesta quarta na Irlanda

Protesto silencioso foi realizado nesta quarta na Irlanda

A revelação de surras, trabalho escravo e estupros no agora extinto sistema irlandês de escolas industriais e de reforma envergonham o povo do país, particularmente os mais velhos.

"Era como se você estivesse dentro de uma prisão e, quando você sai, você não fala sobre isso", afirmou Marina Permaul, 66, que foi criada com "estilo militar" por freiras no condado de Galway, no oeste do país.

"Você não fala sobre isso nem com as suas crianças", disse Permaul, que chegou de Londres para participar da marcha. "Você fica muito envergonhada com isso tudo e, de qualquer forma, eles vão acreditar em você? Você não ousa manifestar-se livremente contra uma ordem religiosa."

Notícias locais informaram que cerca de 7 mil pessoas participaram da marcha, incluindo centenas de vítimas de abuso. Os organizadores do protesto, organizado para coincidir com um debate parlamentar sobre o relatório, expressaram raiva quanto ao fato de as conversas terem sido adiadas para permitir que o Parlamento avalie uma proposta de não confidência no governo.

"Isso realmente enfatiza novamente que o Estado não entendeu de fato o que isso significou para 165 mil crianças que estiveram em 216 instituições", afirmou a vítima Christine Buckley. "Estou muito desapontada", disse Buckley, que criou o Aislinn Centre, que dá apoio a outras pessoas que sofreram abusos.

O inquérito, presidido pelo juiz da Suprema Corte, Sean Ryan, criticou autoridades religiosas por encobrir os crimes e o Departamento de Educação por ser complacente com o silêncio. A investigação também registrou que as crianças eram alvos de pais adotivos, voluntários e funcionários.

O relatório não identificou os agressores após uma bem-sucedida ação legal pelos Christian Brothers, que era o maior provedor de assistência residencial para garotos na Irlanda. Uma série de escândalos envolvendo padres tiraram a Igreja Católica Romana de sua posição de primazia na sociedade irlandesa.

Ordens religiosas identificadas no relatório enfrentaram pressão para pagar indenização às vítimas. Um acordo de 2002 estabeleceu a contribuição em um fundo de retificação de 127 milhões de euros (US$ 177 milhões), mas o valor total deve ultrapassar 1 bilhão de euros.

Buckley disse que o fundo de retificação era uma falha e pediu que sua indenização seja revista e um outro fundo, estabelecido. Nos Estados Unidos, a arquidiocese de Los Angeles acertou o pagamento de US$ 660 milhões a 500 vítimas, na maior indenização desse tipo.

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