Vítimas da ditadura são homenageadas pelas ruas de Buenos Aires

Mar Marín. Buenos Aires, 27 abr (EFE).- Retroceder no caminho do esquecimento e recuperar os passos dos desaparecidos durante a ditadura militar argentina é possível graças ao empenho de um movimento que espalha ladrilhos pelas ruas de Buenos Aires em memória das vítimas do terrorismo de Estado.

EFE |

A experiência da organização Coordenação de Bairros pela Memória e Justiça ficou refletida em um livro lançado recentemente em Buenos Aires, editado pelo Instituto Espaço para a Memória, e que reúne histórias de dezenas de desaparecidos cujos nomes figuram em avenidas e ruas da cidade.

Segundo organizações civis, mais de 30 mil pessoas desapareceram na Argentina após ser detidas ou sequestradas pelo Exército durante a ditadura militar que governou o país entre 1976 e 1983.

Em memória das vítimas, a organização começou a investigar há três anos as vidas de desaparecidos e a colocar ladrilhos nos locais por onde costumavam caminhar, onde viviam, trabalhavam, estudavam, foram detidos ou assassinados.

Desde então, os ativistas de direitos humanos colocaram mais de 150 ladrilhos em diferentes bairros de Buenos Aires. Placas de cimento, protegidas por uma moldura colorida, e sempre com o mesmo texto: Aqui (viveu, estudou, desapareceu ou foi assassinado) o militante popular (nome da vítima), detido e desaparecido pelo terrorismo de Estado. Bairros pela Memória e Justiça".

"É uma intervenção urbana para lembrar que os desaparecidos eram moradores que lutavam para mudar as coisas, para conseguir um mundo melhor", disse em entrevista à Agência Efe Gustavo Sales, membro do movimento do bairro de Almagro.

"O ladrilho é uma marca forte e este país está marcado pela repressão. Foi o horror e o terror que sofremos. Ninguém fica imune e é importante marcar para que o povo saiba. A memória bem trabalhada é o que ajuda a impedir que algo assim volte a acontecer", disse Fanny Seldes, também da organização.

"Os desaparecidos sofreram todas as negações possíveis: queriam apagá-los ao seqüestrá-los; depois, quando desapareciam; se a sociedade não assumir esse tema como seu, será como se voltassem a desaparecer", acrescentou.

O propósito, especificou Mónica Beherán, outra integrante da organização, "não é lembrar o fato trágico da morte, mas a memória de sua vida".

Para isso, relatou, foram ouvidos familiares e amigos dos desaparecidos, com o objetivo de reconstruir sua história e contribuir para mantê-la viva.

"É algo simbólico. Os desaparecidos não têm túmulos, mas os mortos necessitam de seu espaço na cultura ocidental, e o ladrilho se transforma nesse espaço", acrescentou Fanny.

Por isso, alguns familiares depositam flores sobre os ladrilhos e os visitam, para se sentir mais próximos de seus seres queridos.

Nesta luta pela recuperação da memória, a organização encontrou um amplo respaldo social. Apenas em uma ocasião, um ladrilho foi pichado por desconhecidos e voltou a ser colocado após um ato de desagravo.

Pelo contrário, muitas experiências positivas foram acumuladas, desde o trabalho educativo dos colégios próximos aos ladrilhos para informar aos estudantes sobre o sentido desta homenagem, até o apoio dos moradores, como o comprador de um departamento que, após se informar que tinha pertencido a um desaparecido, solicitou a colocação de uma placa em sua memória.

A investigação realizada durante estes três anos permitiu também à organização se informar sobre centenas de casos de desaparecidos, e relatar suas vidas no livro "Baldosas por la Memoria" ("Ladrilhos pela Memória", em tradução livre).

"À medida que avançamos descobrimos mais nomes, e não vamos parar", assegurou Mónica Beherán.

Nomes como os de Graciela Mellibovsky, desaparecida aos 29 anos, que tem um ladrilho em sua homenagem em uma esquina da popular avenida Corrientes; e Julio César Juan, sequestrado e desaparecido aos 24 anos, que foi lembrado na rua Córdoba.

Nomes como o de Carmen Mabel Muñoz, sequestrada em 1977, quando tinha 25 anos, em seu apartamento da rua San Luis, diante de sua mãe e de seu bebê de 19 meses. EFE mar/mh

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