Vítimas da ditadura e Copa de 78 são lembradas com jogo na Argentina

Buenos Aires, 29 jun (EFE).- Jogadores da seleção juvenil e campeões do futebol argentino lembraram hoje as vítimas da ditadura do país com um jogo precedido por uma passeata de organizações humanitárias e sociais, 30 anos depois da vitória da Argentina na Copa do Mundo de 1978.

EFE |

Em um clima de festa, membros da seleção argentina sub-20 e alguns dos jogadores da seleção principal argentina de 78 disputaram no estádio Monumental, do River Plate, uma partida em lembrança aos desaparecidos durante na última ditadura militar (1976-1983).

Mas a chamada "Outra final: a partida pela vida e pelos direitos humanos" não terminou como aquela disputada há 30 anos, quando a Argentina goleou a Holanda por 3 a 1, posto que terminou com um empate (1 a 1).

"Não me senti usado pela ditadura, eu jogava para mim, para o país e para o povo", declarou o ex-jogador Julio Ricardo Villa, um dos integrantes da equipe campeã.

No entanto, líderes de organizações humanitárias afirmaram que "o Mundial se utilizou deles para encobrir os crimes contra a humanidade que se cometiam" durante o regime.

A passeata de hoje começou na ex-Escola Mecânica da Marinha, o prédio onde funcionou o maior centro clandestino de detenção da ditadura, e seguiu em direção ao estádio do River Plate, onde depois aconteceu o jogo.

Os lenços brancos das Mães e Avós da Praça de Maio e as fotos dos desaparecidos da última ditadura compondo uma imponente bandeira de 400 metros emolduraram a mobilização, da qual participaram várias organizações.

"Não é uma festa, é a reivindicação de um povo e daqueles que sofreram com a ditadura. Estaremos juntos, nos abraçaremos e, certamente, derramaremos algumas lágrimas", disse Nora Cortiñas, líder da organização humanitária Mães da Praça de Maio - Linha Fundadora.

O auge da mobilização ocorreu quando centenas de pessoas entraram no campo e deram uma volta olímpica, exibindo a bandeira com os rostos das vítimas do regime.

"O que temos que fazer é (manter a) memória coletiva frente ao que ocorreu e o que ocorre no país. A memória tem que iluminar o presente", declarou Adolfo Pérez Esquivel, Prêmio Nobel da Paz de 1980 e que durante a ditadura argentina foi preso e submetido a torturas durante mais de dois anos.

A essa hora, no campo, já se encontravam prontos para jogar com as camisetas da seleção os dois times, integrados por jogadores da Copa, da seleção juvenil e por jovens não profissionais.

"Não venho para pedir perdão a ninguém, mas para compartilhar este momento com o povo. Nós éramos simplesmente jogadores de futebol convocados para participar do Mundial. Nosso sonho era sermos campeões e isso aconteceu", disse o ex-jogador Leopoldo Luque.

Os presentes lotaram as arquibancadas do estádio, embora o cobiçado camarote oficial tenha ficado vazio desta vez: ali, se sentaram na final da Copa de 78, os líderes máximos da ditadura argentina.

O Mundial de 20 anos atrás foi um caso representativo da utilização do esporte com fins políticos, já que o futebol foi parte essencial da agenda da ditadura.

"Este momento é muito importante e triste ao mesmo tempo.

Sobretudo, é importante que não sejam esquecidos e que não voltem a se repetir aqueles anos trágicos", disse uma das participantes da passeata.

Depois da disputa, vários músicos como Luis Alberto Spinetta e Lito Vitale, entre outros, iniciaram uma performance, que fechará o dia em memória aos 30 mil desaparecidos durante o regime, segundo organizações humanitárias. EFE ms/bm/sc

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