Visita de Lula pós-Doha é vista como apoio a Cristina Kirchner

O presidente Lula chega à Buenos Aires neste domingo à tarde acompanhado por quase 200 empresários, após as diferenças entre Brasil e Argentina durante a Rodada de Doha, esta semana em Genebra. A previsão é de que o assunto fará parte das conversas entre o presidente e a colega argentina Cristina Kirchner.

BBC Brasil |

Mas esta visita de Lula, que durará 24 horas, é vista por negociadores brasileiros e argentinos, além de analistas, ouvidos pela BBCBrasil, principalmente, como "um gesto de apoio político" à Cristina.

A presidente assumiu o poder em dezembro passado e quatro dos sete meses de seu governo foram consumidos por uma disputa com o setor rural. Essa contenda provocou forte queda na popularidade da presidente e dissidências na sua base política.

"A visita de Lula representa um forte gesto político de apoio ao governo argentino. E ocorre num momento em que a presidente tenta relançar sua gestão, após uma etapa de conflitos", disse o analista político Roberto Bacman, do instituto Ceop.

"O presidente Lula tem boa imagem na Argentina hoje e para Cristina é positivo aparecer a seu lado, neste momento".

Argentina 'isolada'
Na opinião do analista econômico Dante Sica, da consultoria Abeceb.com, especializada na relação Brasil e Argentina, a presença de Lula representa este "gesto de apoio" à Cristina e ocorre quando o país está "isolado" no contexto internacional.

"Esta visita de Lula simboliza um forte apoio do governo brasileiro ao governo argentino. Nestes sete meses, foram pouquíssimas as visitas oficiais de autoridades internacionais à Argentina. Nosso país está muito isolado em termos internacionais", disse Sica.

O especialista recordou que a maioria dos empresários que farão parte da comitiva oficial brasileira tem interesse em investir ou fazer negócios com a Argentina. "Esse é o outro lado positivo desta visita", afirmou.

A lista de empresários brasileiros inclui representantes do setor têxtil, química, máquinas agrícolas e automotivo, entre outros.

Oficialmente, como informou o assessor Marco Aurélio Garcia, essa visita de Lula foi combinada há cerca de dois meses. Mas para os analistas, ao desembarcar com uma comitiva que inclui ministros e empresários, Lula "reforça" seu "respaldo" a Cristina.

Na segunda-feira, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, chega a Buenos Aires e deverá participar da agenda de Lula e Cristina.

Integração
Como Sica, o analista econômico Raul Ochoa, ex-secretário de Comércio Exterior e especialista em comércio internacional, entende que a visita de Lula tem braços político e econômico. "O presidente do Brasil desembarca aqui para respaldar a institucionalidade, a governabilidade argentina", entende.

"Esta visita mostra ainda a atenção que Lula tem dado à integração do Mercosul e da América do Sul, como um todo. Lula faz ponte entre os diferentes presidentes da região. Basta ver seu itinerário das últimas viagens à América do Sul, que incluíram encontros com (Álvaro) Uribe, da Colômbia, e (Hugo) Chávez, da Venezuela, e (Evo) Morales, da Bolívia, entre outros."
Ao mesmo tempo, Ochoa lembrou que as empresas brasileiras foram as que mais investiram no país desde a desvalorização do peso, em 2002. Estima-se que as companhias brasileiras investiram entre US$ 6 bilhões e US$ 8 bilhões em áreas como petróleo, cimento, carne, bebidas, entre outros. Para ele, um sinal claro da expansão das empresas brasileiras e da maior integração econômica - mesmo que no setor privado - entre os dois países.

Déficit
Quase que simultaneamente, nestes últimos anos, a partir de 2003, a Argentina passou a acumular déficit na balança comercial com o Brasil. Só no ano passado, este déficit superou os US$ 4 bilhões.

Este ano, segundo Sica, a cifra deverá ser de US$ 5 bilhões. "O mercado argentino é importante para as exportações brasileiras. (...) Ao mesmo tempo, a indústria argentina ainda precisa de tempo para ter maior peso", disse Ochoa. Na opinião do especialista, foi essa "necessidade" de proteção que levou a Argentina a ter uma visão diferente da do Brasil na Rodada de Doha.

"O Brasil está numa posição mais ofensiva e tem condições para isso. O Brasil lidera a produção de diferentes produtos industriais. A Argentina não", disse Ochoa.

Para Sica, se a Rodada tivesse sido concretizada aí sim poderiam surgir "diferenças mais fortes" entre Argentina e Brasil. "Aqui a postura foi muito favorável aos industriais, mas a postura brasileira deixou claro que a Argentina deve estar mais atenta às tendências internacionais".

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