Visita a Coreia do Norte mostra paradoxo do país

Quando o avião começa a se aproximar do pouso em Pyongyang, capital da Coreia do Norte, a leitura de bordo lembra os visitantes que lá em baixo um homem é o líder máximo.

BBC Brasil |

"Uma atmosfera de alegria prevalece nas casas, nas ruas, nas vilas e em todos os outros lugares", diz uma reportagem da revista Korea Times ao lado de uma foto do líder Kim Jong-Il.

No solo, o culto à personalidade dos líderes é ainda mais explícita.

No centro de Pyongyang, os visitantes são levados para ver uma estátua gigante de bronze do pai do atual líder e fundador do país, Kim Il-Sung.

Os cidadãos, alguns em uniformes militares, depositam flores neste santuário a um dos mais efetivos sistemas de controle já estabelecidos.

Um sistema que se mantém inalterado há mais de meio século.

Restrições

A população do país enfrenta duras restrições a sua liberdade de expressão e de movimento.

As tentativas da BBC de gravar sons e imagens nas ruas de Pyongyang são recebidas com respostas duras, com a câmera e as fitas temporariamente apreendidas pelas autoridades.

Foi possível, porém, capturar algumas imagens do dia-a-dia da população, ao menos da parcela de cidadãos privilegiados de Pyongyang.

Considerando a economia em situação precária e o peso adicional das sanções internacionais, a capital do país parece em boa forma.

O hotel Ryugyong, um esqueleto de edifício de 105 andares que há muito tempo se destaca na paisagem de Pyongyang como um símbolo do fracasso do país, está finalmente começando a tomar a forma de seu projeto original.

Maquiagem

Alguns dos habitantes da cidade afirmam que tem havido mais carros nas ruas ultimamente, apesar de a maioria dos cidadãos se locomover a pé ou de bicicleta.

Uma campanha tenta promover a produtividade. Reparos têm sido feitos, e muitos edifícios vêm ganhando uma mão de tinta. Mas a maquiagem esconde uma realidade mais amarga.

A apenas algumas milhas da capital, o tráfego praticamente desaparece, e a principal estrada ao sul da cidade se transforma, na prática, na mais ampla ciclovia do mundo.

De tempos em tempos, é possível observar um jipe quebrado do Exército, com o capô levantado e soldados mexendo no motor.

Uma ponte caída na estrada principal força o motorista do ônibus a tomar um caminho alternativo pelo campo, e por um outro século.

Há quase nada de mecanização. A colheita é feita à mão, com o milho carregado por carros de boi, e a pobreza está em todo lugar.

Neste ano, o país deve mais uma vez enfrentar uma grande escassez de alimentos.

Ginástica

A Coreia do Norte prefere mostrar aos poucos turistas, e jornalistas em ainda menor quantidade, uma imagem totalmente diferente.

A maioria dos visitantes nesta época do ano acaba assistindo às apresentações de ginástica em massa, conhecidas como Jogos de Massa Arirang.

Eles são feitos, quase claramente, como uma metáfora para o Estado - um corpo de pessoas se movimentando em uníssono, unidas contra um mundo exterior hostil.

Isso também poderia sintetizar a estratégia militar norte-coreana.

A Coreia do Norte se concentra em sua fronteira altamente militarizada com a vizinha Coreia do Sul, que é apoiada por uma superpotência nuclear, os Estados Unidos.

Com a China e a Rússia, outras potências nucleares, em sua outra fronteira, um dos países mais isolados e com menos aliados no mundo acredita que tem uma razão forte e convincente para querer suas próprias armas atômicas.

Em uma visita à área da fronteira com a Coreia do Sul, a reportagem da BBC questionou um dos guias, um tenente do Exército norte-coreano, sobre o programa nuclear.

"Precisamos de nossas armas nucleares para defender a paz", ele disse. "Nós abandonaremos nossas armas quando os americanos abandonarem as suas", afirmou.

Paradoxo

É quase impossível saber o que o norte-coreano médio realmente pensa sobre a situação atual do país.

Mesmo se fosse possível a jornalistas abordar livremente as pessoas nas ruas, seria muito pouco provável que alguém se arriscasse a expor suas opiniões a um repórter da BBC.

Ainda assim, é possível dizer que enquanto o mundo luta para responder às ambições nucleares de Pyongyang, os visitantes se veem diante de um grande paradoxo.

Este pode ser um lugar profundamente autoritário e empobrecido, mas pelo menos parte de seus cidadãos parece genuinamente orgulhosa e desafiadora.

É essa forma de legitimidade, e não apenas os controles impostos aos cidadãos, que tem ajudado a Coreia do Norte a resistir por tanto tempo.

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