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Apesar dos violentos confrontos registrados, neste domingo, em pelo menos três localidades do Departamento (Estado) de Santa Cruz, entre os que apóiam e rejeitam a autonomia departamental, a Corte Departamental Eleitoral (CDE) afirmou que somente 3% dos pontos de votação para o referendo sobre a autonomia foram afetados. O balanço foi feito quando a votação ainda não tinha sido concluída.

A previsão é de que a votação terminará às 18h (19h em Brasília). "Podemos dizer que a eleição funciona normalmente e é um sucesso", disse David Antelo, da CDE.

No centro de Santa Cruz de la Sierra, capital do Departamento, a polícia foi chamada várias vezes para evitar confrontos mais graves entre os que gritavam "autonomia" e os que respondiam com "fora".

Na cidade de Yapacani, a cerca de 150 quilômetros de Santa Cruz de la Sierra, a eleição foi suspensa depois que diferentes grupos entraram nos locais de votação e roubaram as urnas para que fossem destruídas em fogueiras improvisadas.

Ali, alguns dos que reagiram apanharam dos demais diante das câmeras de televisão.

Na localidade de Montero, a 80 quilômetros do centro da capital departamental, multidões a favor e contra o referendo se agrediram com paus, pedras e explosivos.

Alguns foram linchados nas ruas e hospitalizados em estado grave. Os números totais ainda não tinham sido divulgados.

Paus e estilingues
No chamado Plano 3000, um bairro com quase 300 mil habitantes, que está a meia hora do centro da capital, moradores usaram paus e estilingues para combater os que queriam votar no referendo.

A correria foi intensa e pontos de votação foram fechados. Ali, mais de trezentos policiais ocupavam as ruas, mas com a ordem de intervir apenas em situações "extremas".

O Plano 3000 reúne, principalmente, moradores que chegaram de outros Departamentos, como Cochabamba e Oruro.

Com um estilingue no pescoço, o artesão Mario Huaniquina, de 33 anos, que nasceu em Oruro, disse por que não votaria e tentava impedir que outros votassem: "Não nos consultaram para redigir este estatuto que está sendo votado hoje. Nós também temos direito a opinar e a decidir. E votar, mesmo pelo não, é dar legalidade a uma coisa falsa".

O soldador Alfredo Blanco, de 35 anos, também afirmou que não votava porque não considerava uma votação "legítima".

"Sou filho de colla (indígenas da região do Altiplano) e por isso sou humilhado aqui em Santa Cruz, onde existem salários e oportunidades para os ricos e para nós, os mais pobres, sobra o resto", disse.

No megafone, uma líder comunitária dizia: "Aqui a direita não vai passar".

Ao mesmo tempo, eram queimadas urnas na praça principal chamada "La Rotonda".

Diálogo com Morales
Nas diferentes localidades que repudiam a votação eram queimadas em fogueiras urnas e fotos do presidente do Comitê Pro-Santa Cruz, Branko Marinkovic, um dos principais líderes de defesa da autonomia.

"Atos de violência não deveriam corresponder a um processo democrático legítimo como este", disse Marinkovic à BBC Brasil.

Ele afirmou que não haverá diálogo com o presidente Evo Morales enquanto não terminar o processo de votação dos referendos que em junho serão realizados também pelos Departamentos de Beni, Pando e Tarija.

"Nosso objetivo é chegar a uma autonomia real para assim podermos distribuir melhor os recursos que seriam fiscalizados de perto pelos eleitores. O federalismo é um sistema bom, como ocorre com Brasil e Argentina, os mais desenvolvidos da região. Mas poderíamos olhar para o modelo (de autonomias) da Espanha e Bélgica."

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