Violência étnica deixa 140 mortos no Sudão, diz governo

Confrontos entre povos que vivem no sul do Sudão deixaram pelo menos 140 mortos, de acordo com o governo do país. O vice-governador do Estado de Warrap, Sabino Makana, afirmou que integrantes do grupo Nuer atacaram criadores de gado e camponeses do grupo Dinka e teriam se apropriado de milhares de cabeças de gado.

BBC Brasil |

A violência teria explodido durante o fim de semana na cidade de Tonj, segundo Makana. As Nações Unidas afirmaram que mais de 2 mil já morreram em episódios de violência étnica no sul no último ano.

O sul sudanês registrou mais mortes que a região de Darfur no ano passado.

As regiões norte e sul do país travaram uma guerra civil de 22 anos, que deixou cerca de 1,5 milhão de mortos.

O conflito foi encerrado em 2005, com um acordo de paz que introduziu um governo compartilhado entre representantes de ambas as regiões.

No entanto, nesta quinta-feira, um grupo de dez organizações humanitárias internacionais afirmou que o acordo está prestes a ruir, sendo necessárias medidas imediatas para evitar o reinício do conflito armado.

'Coquetel mortal'

As agências, entre elas a Oxfam, a Christian Aid e a Save The Children, apontam para um "coquetel mortal" de violência, pobreza crônica e tensões políticas como culpado pela ameaça iminente.

A região sul de Darfur, rica em petróleo, deve realizar um referendo para decidir sobre a sua independência em 2011.

A Grã-Bretanha prometeu repassar US$ 87 milhões em ajuda para reconstruir o sul sudanês e prepará-lo para as eleições gerais de abril, as primeiras na esfera nacional nos últimos 20 anos.

O tratado de paz de 2005 permitiu que o Partido Nacional do Congresso (NCP) do presidente, Omar al-Bashir, radicado no norte do país, dividisse o governo com o Movimento pela Liberação do Povo do Sudão (SPLM), formado por rebeldes do sul.

Possíveis estopins

No relatório divulgado pelas agências humanitárias, disputas pelas reservas de petróleo sudanesas, as eleições de abril e o referendo da independência são apontados como possíveis estopins para um conflito renovado.

Os ativistas afirmam que novos combates armados na região teriam consequências devastadoras, que possivelmente se estenderiam para além do sul sudanês.

O correspondente da BBC na capital do Sudão, Cartum, James Copnall, afirmou que o país está claramente na linha de partida de 12 anos muito carregados e arriscados.

No entanto, ele acrescenta que diferentemente do início de outras crises, dessa vez há uma forte presença internacional no país. Cerca de 10 mil soldados de paz se encontram no sul sudanês.

O embaixador do Sudão na Grã-Bretanha, Omar Muhammad Siddiq, admitiu que a situação em seu país está "se deteriorando".

Ele afirmou que algumas comunidades já estão se armando e iniciando "guerras tribais" na disputa por recursos cada vez mais escassos.

"A situação não está tão boa quanto esperávamos, na época em que assinamos o acordo abrangente de paz ", disse Siddiq.

No entanto, ele não acredita que as tensões atuais afetarão as eleições, para as quais, segundo Siddiq, partidos e eleitores já estariam se preparando para participar.

Genocídio

O conflito na árida e empobrecida região de Darfur começou em 2003, quando grupos rebeldes atacaram alvos do governo, acusando Cartum de oprimir a população negra do país e favorecer a população árabe.

Milícias pró-governo contra-atacaram com força, em atos que foram classificados pelo governo dos Estados Unidos e grupos de defesa dos direitos humanos como genocídio.

O governo de Cartum nega ter dado apoio às milícias, mas a Corte Internacional de Haia emitiu uma ordem de prisão no início do ano contra o presidente sudanês, Omar Al-Bashir, acusando-o de crimes de guerra.

Embora a intensidade dos conflitos tenha se reduzido, há ainda poucas chances de se chegar a um acordo de paz.

Na semana passada, o enviado especial do governo dos Estados Unidos para o Sudão, Scott Gration, afirmou que a existência de 26 facções rebeldes no país é o maior obstáculo para se alcançar um acordo de paz.

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