Vinte anos depois de massacre, juventude chinesa quer sucesso e dinheiro

Passados 20 anos dos protestos pró-democracia na Praça da Paz Celestial em Pequim, a atual juventude chinesa demonstra ainda sonhar com liberdade, mas prioriza o sucesso profissional e a riqueza pessoal. A tendência foi apontada por estudantes e dissidentes entrevistados pela BBC Brasil.

BBC Brasil |

Fluente em inglês, Xiao Dong* é uma típica universitária da capital.

Formando-se em marketing pela Universidade de Pequim, Xiao acredita que pode e deve ajudar a China a ser um país melhor, mas não agindo da mesma maneira que estudantes há 20 anos.

"Minha prioridade é ficar rica. Vou trabalhar numa das 500 maiores companhia do mundo e depois quero montar meu próprio negócio, este é o meu objetivo e senso de conquista maior", diz Xiao.

Ela, assim como muitos estudantes de nível superior do país, acredita que a melhor forma de contribuir para fazer da China um país melhor é tornar-se rica e profissionalmente bem sucedida.

"Nós pensamos que nossa família é mais importante, nosso trabalho é mais importante, do que ficar protestando", explica Dao Zhu*, bacharel em sociologia com ênfase em relações internacionais.

"Nós aprendemos as lições de 1989, hoje sabemos que é perigoso lidar com questões políticas", diz Dao.

A geração que foi apelidada pela imprensa internacional de "geração Eu", por colocar ambições pessoais em primeiro plano, não tem vergonha de afirmar suas metas individuais e acredita que enfrentar o governo com protestos é perda de tempo.

Superficiais

Os jovens discordam, porém, da percepção ocidental de que eles sejam "superficiais".

A geração de hoje aproveita a prosperidade econômica para buscar conhecimento e se articular silenciosamente em prol da liberdade, dizem os estudantes e dissidentes ouvidos pela BBC Brasil.

"Primeiro eu quero encontrar um trabalho e então daqui a 10 anos eu vou montar uma fundação para mudar o ensino básico na China" explica Hin Yan*, estudante da Universidade de Pequim.

Assim como os outros jovens entrevistados, Hin sabe o que aconteceu na Praça da Paz Celestial em 1989, embora o assunto seja tabu nas escolas do país.

"Aprendemos conversando com nossos pais e professores", conta Hin.

A fundação que ela pretende montar buscará revisar o conteúdo dos livros didáticos. Hin quer "fazer a diferença ajudando na educação fundamental".

Nas escolas elementares os professores "não encorajam o pensamento crítico independente", diz. "Os livros didáticos são controlados pelo governo", reconhece.

Iniciativas como a de Hin, que pretendem mudar o sistema de dentro pra fora, não são exceção.

"Quem quer lidar com política entra para o governo, se alia a ele, ao invés de se opor", resume Dao.

Concretos

"Os jovens de hoje são concretos", afirmou à BBC Brasil Han Dongfang, um dos líderes do movimento de 89, que hoje vive exilado em Hong Kong de onde advoga pelos direitos dos trabalhadores na China.

"Na nossa época nós não fazíamos ideia sobre como conectar interesses pessoais com direitos democráticos", recorda Han.

"Eu os invejo porque suas experiências pessoais permitem que conectem a ideia maior de democracia com a vida cotidiana deles", disse Han.

De acordo com o dissidente, as formas de construir uma China democrática não se resumem aos protestos de 1989 e atualmente o país está caminhando em direção à abertura porque a criação de prosperidade traz inevitavelmente o questionamento e o desejo por liberdade.

Ele acredita que a juventude de hoje está construindo uma sociedade mais esclarecida e que isso é pré-requisito para mudanças reais.

"O movimento das massas nas ruas sem a construção de uma sociedade civil não é confiável", disse.

Lavagem Cerebral

"Na superfície pode parecer que os jovens não se interessam tanto por democracia e liberdade, mas isso é resultado de 20 anos de lavagem cerebral promovida pelo Partido Comunista", disse à BBC Brasil Cheuk-yan Lee membro do conselho legislativo de Hong Kong.

Lee participou dos protestos na Praça da Paz Celestial em 1989 e é também membro da aliança pró-democrática "Aliança de Hong Kong em apoio aos Movimentos Patrióticos Democráticos da China" que organiza anualmente protestos marcando o aniversário dos confrontos.

"A liberdade ainda está dentro dos corações dos estudantes de hoje" diz Lee, "se lhes for dada a oportunidade, eles irão se mobilizar para lutar por democracia", afirma.

O veterano ativista está otimista com a juventude de 2009 e disse que "tem fé" neles.

"Atrás do pragmatismo sempre há uma onda de estudantes com ideais que irá demandar democracia", afirma com convicção Lee. "É só uma questão de tempo", conclui.

Na noite de 4 de junho, uma vigília à luz de velas no parque Victória deverá marcar o exato momento em que forças do governo e estudantes entraram em combate na Praça da Paz Celestial há 20 anos.

Em 1989 inúmeros estudantes e populares ocuparam a Praça no centro de Pequim reivindicando mudanças democráticas. O governo chegou a negociar com os estudantes, mas mudou de posição por temer que sua liderança puidesse ser comprometida e entrou em confronto com os manifestantes.

O episódio foi imortalizado pela imagem de um jovem se colocando em frente a uma fileira de tanques militares, na tentativa de impedir o combate.Até hoje não é sabida a identidade e o destino desse jovem.

*Os nomes foram alterados a pedido dos entrevistados.

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