Vinte anos após sua morte, o sonho de Sakharov para a Rússia resta inacabado

A luta do físico e Prêmio Nobel da Paz Andreï Sakharov ante uma URSS hostil não foi em vão, mesmo se a Rússia de hoje esteja longe de parecer o país livre com o qual sonhava, estimaram nesta segunda-feira militantes pelos direitos humanos, por ocasião do 20º aniversário de sua morte.

AFP |

Apenas um punhado de jornais russos evocaram a memória daquele que foi, em plena guerra fria, um físico de gênio e um dos pais da bomba de hidrogênio soviético, passando, depois, a advertir o mundo contra os perigos da radioatividade e a defender as vítimas da repressão política.

E as próprias celebrações - uma cerimônia diante de seu túmulo e uma conferência com uma centena de participantes sobre suan herança intelectual- parecem modestas em relação aos ventos de liberalização que ele conseguiu fazer soprar, na época.

Uma foto tirada no dia 17 de dezembro de 1989, ou seja três dias após sua morte, e divulgada nesta segunda-feira pela imprensa, mostra uma gigantesca fila (estimada em 80.000 pessoas, que enfrentaram o frio por seis horas) de soviéticos decididos a prestar homenagem à sua coragem excepcional.

Para o semanário da oposição Novaïa Gazeta, a constatação é amarga: "deixou-nos há 20 anos. E quase o esquecemos (...) Sakharov não foi ouvido por um país, que ele escutou muitas vezes. A surdez leva ao mutismo".

O cronista Vladislav Inozemtsev,dno jornal Vedomosti, lhe faz eco: "Em duas décadas, o mundo mudou a ponto de tornar-se irreconhecível, mas a Rússia, pela qual batia o coração de Andreï Sakharov, não seguiu o caminho desejado para ela", escreveu.

Os herdeiros de Sakharov rejeitam categoricamente a ideia de que seu combate pudesse ter sido inútil.

Numerosas nações da Europa do Leste e Central são, hoje, membros da União Europeia "graças a Sakharov", considerou, por sua vez, Oleg Orlov, presidente da ONG Memorial, entidade dirigida pela primeira vez pelo célebre físico após sua fundação, em 1989. "Certamente que não lutou em vão", acrescentou.

O presidente Dmitri Medvedev enviou nesta segunda-feira mensagem aos participantes da conferência sobre Sakharov na qual celebra ele também "a profundidade e a atualidade de (suas) ideias", informou o Kremlin.

ahe/alf/sd

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