Vice argentino ganha popularidade ao desafiar Cristina Kirchner

O vice-presidente da Argentina, Julio Cobos, tornou-se o político mais popular do país ao desafiar a enfraquecida presidente Cristina Kirchner, que não fala mais com ele.

Reuters |

Cobos diz estar disposto a trabalhar com a chefe, mas aproveitou a viagem dela às Nações Unidas, na semana passada, para se reunir com adversários, e muitos acreditam que ele esteja em pré-campanha para disputar a presidência em 2011.

Cristina escolheu Cobos como vice, em 2007, para ampliar seu apoio além do Partido Justicialista (peronista). Ele deixou a União Cívica Radical (UCR), mais tradicional rival do peronismo, para formar chapa com ela.

Mas Cobos rompeu com ela depois da posse, sentindo-se excluído das decisões do governo. Vingou-se de forma dramática em 17 de julho, quando, na condição de presidente do Senado, desempatou uma votação derrubando um pacote tributário que elevaria os impostos sobre a exportação de soja.

Os peronistas chamaram Cobos de traidor e Cristina o excluiu das atividades oficiais. Mas ela não pode demiti-lo, e dificilmente o Congresso irá aceitar o seu impeachment. Ele diz que não vai renunciar, e analistas dizem que esse impasse tende a durar todo o mandato.

"Isso é altamente irregular, mas ele foi realmente prudente, maximizando os recursos que tem, que não são muitos, porque a Vice-Presidência é uma instituição fraca. Ele pode passar muito tempo fazendo o que está fazendo", disse o analista político Sergio Berensztein.

Cobos, um engenheiro de 53 anos, vindo de Mendoza (centro-oeste), tornou-se muito mais popular que Cristina, vista como uma pessoa arrogante - ao contrário dele, considerado acessível.

A atuação dele no episódio da crise com os agricultores por causa do imposto da soja também foi muito bem avaliada.

Uma nova pesquisa do instituto Ibarometro mostrou Cobos com 67 por cento de imagem positiva, enquanto Cristina está abaixo de 30 por cento. A Vice-Presidência argentina não quis se manifestar nesta reportagem.

Cristina foi eleita na expectativa de manter a recuperação econômica promovida por seu marido e antecessor, Néstor Kirchner. Mas sob o seu governo a inflação se agravou e ela não conseguiu manter o domínio do cenário político que ele tinha.

"O vice-presidente está mais forte que o presidente. O Congresso está modificando tudo o que ela manda. Os sindicatos estão exigindo enormes aumentos salariais", comentou o analista Joaquín Morales Solá.

Futuro incerto

Apesar da popularidade, o futuro político de Cobos é incerto, pois ele tem a máquina partidária contra si. Para voltar à UCR ele precisaria criticar explicitamente o casal Kirchner, um confronto aberto que ele não parece disposto a travar.

Ele parece usar o cargo para se projetar, e percorre o país cultivando aliados para as eleições locais de 2009, como ensaio para 2011.

Desde a histórica votação de julho no Senado, a presidente e seu vice se encontraram apenas uma vez. Ele diz que a relação está "morta" e que cabe a ela tentar retomá-la.

Na semana passada, ocupando interinamente a Presidência, ele recebeu o poderoso líder oposicionista Mauricio Macri, prefeito de Buenos Aires. Depois, encontrou-se com outro inimigo do governo, o dirigente ruralista Eduardo Buzzi, responsável por bloqueios rodoviários e outros protestos contra o imposto da soja, de março a julho. A imprensa local diz que, à distância, ela ficou irritadíssima com a agenda de Cobos.

Ele também desfrutou da sua popularidade retribuindo aos cumprimentos ao disputar a meia-maratona de Buenos Aires e ao assistir a um jogo da Copa Davis de tênis. Esse tipo de disponibilidade é rara em políticos argentinos, que geralmente evitam eventos públicos onde possam ser vaiados.

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