Viagem de Lula marcou mudança de tom na defesa do etanol

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva encerrou neste sábado sua visita à Holanda e à República Tcheca, em uma viagem que produziu acordos em diversas áreas e marcou uma mudança de tom na defesa brasileira do etanol. Lula volta ao Brasil levando na mala cinco memorandos de entendimento com a Holanda nas áreas de portos, águas, educação superior, patrimônio cultural e biocombustíveis.

BBC Brasil |

Com a República Tcheca, o Brasil assinou um acordo amplo que o presidente descreveu como "o início extraordinário do que vai acontecer daqui pra frente".

O acordo de cooperação com a República Tcheca até agora vigente era de 1994 e, segundo o Itamaraty, havia a necessidade de atualizá-lo para designar novas áreas e prioridades.

Os novos temas incluem energia, desenvolvimento agro-industrial e florestal, indústria automobilística, aeroespacial e de bens de capital, informática, proteção ambiental, sistemas de transporte, padrões técnicos, entre outras.

O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Miguel Jorge, afirmou que o entendimento começará a sair do papel com uma missão empresarial de empresários brasileiros que visitarão a República Tcheca em maio.

Antes, técnicos devem identificar áreas de interesse comercial, que devem incluir produtos como aviões, locomotivas e material ferroviário, turbinas para hidreletricidade e máquinas para fabricação de cimento.

República Tcheca
Na primeira visita oficial de um presidente brasileiro à República Tcheca desde a separação do país da Eslováquia, em 1993, o presidente Lula cumpriu uma agenda em grande parte ao ar livre, sugerida pela Presidência tcheca, beneficiando-se do sol primaveril da bela cidade de Praga.

O presidente passeou a pé pela ponte Carlos, um dos cartões postais de Praga - conhecida como "a Paris do Leste Europeu" pela ornamentação de suas pontes - e visitou a Igreja de Nossa Senhora da Vitória, onde foi presenteado com uma réplica da imagem do Menino Jesus de Praga. Ele também foi ao Mosteiro de Strahov, que abriga uma das mais importantes coleções tchecas de livros antigos.

Mais cedo, Lula gastou sua pronúncia do idioma tcheco diante da guarda uniformizada do Palácio do governo. O brasileiro saudou os soldados dizendo, "Vojaci nazdar" (traduzindo: Soldados, eu os saúdo!), a que os militares responderam, executando uma coreografia.

Em um pronunciamento à imprensa junto com Vaclav Klaus, Lula desejou que a República Tcheca se classifique para a Copa do Mundo de 2014, que será realizada no Brasil.

Mas logo fez ressalva: "Espero que a República Tcheca tenha a mesma sorte que teve na Copa do Mundo de 1962, no Chile. Ou seja, é bom que jogue a final contra o Brasil, mas é bom que o Brasil fiquei em primeiro, e a República Tcheca, em segundo", brincou.

Holanda
A agenda descontraída de Praga contrastou com a da Holanda, de grande importância comercial porque os holandeses figuram sempre entre os principais investidores na economia brasileira - foram os líderes em 2007, com mais de US$ 8 bilhões investidos, segundo os números oficiais.

Com um comércio de cerca de US$ 10 bilhões, um dos memorandos de entendimento é na área de portos. O de Roterdã, o maior da Europa, é um grande entreposto para as mercadorias brasileiras destinadas ao continente. Além disso, o Brasil quer atrair investimentos para grandes obras de ampliação e construção de portos e projetos de dragagem que fazem parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Os dois países concordaram em cooperar em educação superior e patrimônio cultural. Algumas das áreas de pesquisa seriam urbanismo, pesquisa subaquática (de barcos naufragados durante a era colonial, por exemplo) e intercâmbio de línguas.

Além disso, os países concordaram em incentivar projetos relacionados aos recursos hídricos, natureza e clima, e manifestaram interesse em colaborar na área de produção e uso de biocombustíveis. O acordo assinado nesta área reconhece o papel "estratégico" da bioenergia em um contexto de mudança do clima e "os imperativos de desenvolvimento sustentável", mas também diz que é preciso eliminar "distorções de mercado" decorrentes da atividade.

Biocombustíveis
Este foi, aliás, um dos temas 'quentes' nesta visita presidencial, que ocorre em um momento em que organizações culpam parcialmente os biocombustíveis pela alta nos preços dos alimentos. Em um editorial na sexta-feira, último dia de visita de Lula à Holanda, por exemplo, o jornal The International Herald Tribune publicava um editorial afirmando que, "ao apoiar os biocombustíveis, os países ricos criam uma crise".

Reproduzindo críticas de setores da sociedade civil, o texto argumentava que as áreas de plantação de matérias-primas para combustível tomariam espaço das colheitas de alimentos, reduzindo a oferta e elevando os preços.

No fim do dia, em duro tom poucas vezes utilizado para tratar do tema, Lula criticou os céticos em relação ao biocombustível, afirmando que as críticas são "falácia, mentira deslavada de quem não entende ou de quem não quer entender" do tema. Ele disse que é "amplamente possível" compatibilizar a produção de biocombustível e de alimentos, a partir de outros países.

"Nós podemos produzir combustível a partir de países que hoje não produzem nada e que têm problemas muito sérios de desenvolvimento" , disse Lula.

"Eu peço a todos vocês que, ao analisarem a questão dos biocombustíveis, não analisem a partir do território da Holanda ou de um país europeu. Olhemos o mundo a partir da América Latina, do território africano, de alguns países que têm sérios problemas de crescimento econômico."
Lula criticou a preocupação de organizações internacionais com o efeito inflacionário dos biocombustíveis, enquanto o barril do petróleo supera os US$ 104 "e todo mundo finge que não está acontecendo nada". Segundo ele, o uso dos biocombustível poderia "democratizar" a produção de petróleo, hoje concentrada em poucos países.

"O dado concreto é que cada dia que passa nós produzimos mais carros, usamos mais gasolina, mais óleo diesel, emitimos mais CO2, poluimos mais o planeta e aumentamos mais o aquecimento global", atacou Lula.

"Nós vamos mudar isso ou não vamos? O Brasil está apresentando uma alternativa. Nós apresentamos um combustível que não emite CO2, menos poluente, muito mais gerador de empregos, portanto muito mais importante para o mundo subdesenvolvido."

    Leia tudo sobre: praga

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG