Veteranos do Iraque, ex-marines limpam cenas de crimes nos EUA

David Valenzuela. Nova York, 28 mar (EFE).- Dois ex-marines americanos aproveitaram sua experiência no Iraque recolhendo os corpos de seus companheiros mortos na guerra para, em seu retorno aos Estados Unidos, criar uma empresa dedicada à limpeza de cenas de crimes.

EFE |

Ben Lichtenwalner e Ryan Sawyer, dois reservistas do Exército americano, criaram a Biotrauma (www.biotrauma.com) no estado da Geórgia, uma das poucas empresas especializadas em limpar a fundo -após a perícia- locais de acidentes, homicídios, suicídios ou mortes naturais.

"Em 80% dos casos, é a própria família que limpa e se encarrega de que tudo volte à ordem. Permitir que, tendo sofrido um transtorno tão grande, essas pessoas façam isso não é normal. Por isso fizemos a Biotrauma", disse à agência Efe Sawyer, que conheceu seu sócio no Iraque em 2005.

Muito se viu no cinema e também na televisão de como trabalha a Polícia científica, mas poucas vezes se falou do que passa quando, por exemplo, o inspetor Gil Grissom da conhecida série de ficção "CSI" abandona com o trabalho feito a cena do crime, um lugar que deve voltar à normalidade no dia seguinte.

É nesse momento que entram em cena os profissionais como Lichtenwalner e Sawyer, que durante sete meses foram os encarregados por recuperar os corpos de todos os que tivessem morrido em combate, "fossem marines, civis iraquianos ou os inimigos", lembrou Sawyer.

"Fomos treinados para sermos conscientes dos perigos físicos de tratar com corpos nesse estado", explicou Sawyer, para quem "o mais importante" que eles levaram do Iraque foi "o aprendizado emocional do que significa a morte e as consequências que ela tem em seus próximos".

Levar equipamento adequado para evitar qualquer infecção e os produtos químicos necessários para não deixar restos "nem visíveis nem invisíveis" das tragédias não é suficiente para estes empresários, já que consideram que o mais importante é "respeitar as famílias e ser sensíveis às situações que elas vivem", diz Sawyer.

"Limpamos todos os aspectos físicos, mas nosso negócio se concentra em ter sempre as famílias em mente e em sermos respeitosos com seus sentimentos. Nisso tentamos ajudar", afirma o ex-marine.

Trabalhos como o dele agora são mais conhecidos nos Estados Unidos graças à recente estreia de "Sunshine Cleaning", uma comédia com Amy Adams, Emily Blunt e Alan Arkin como protagonistas, que conta como duas irmãs iniciam uma empresa de limpeza de cenas de crimes para conseguir uma renda melhor.

"Não vimos o filme, mas posso afirmar que nos alegra profundamente que, talvez graças a ele, haja mais pessoas sabendo o que fazemos, que este trabalho existe e que realizamos uma função importante", disse Sawyer.

A Biotrauma, no entanto, difere muito da Sunshine Cleaning como empresa, já que, segundo o empresário, "por respeito à intimidade das famílias", nenhum de seus veículos leva o nome da empresa nem se pode ver os trabalhadores em macacões de trabalho fora das casas.

Embora os dois ex-militares reconheçam que sua aventura profissional pode causar certa inquietação a alguns, também afirmam que entre seus parentes e amigos respeitam seu trabalho.

Eles "estão muito orgulhosos" do que fazemos, algo que é "a melhor maneira de devolver à sociedade o que aprendemos como marines", garantem.

Sawyer, destacando que "todo o mundo deve saber que seus serviços estão cobertos normalmente pelas apólices de seguro", reconheceu, no entanto, que há encomendas mais complicadas do que outras.

"Como nas vezes em que sentimos o fedor que permanece onde há pouco estava um corpo em decomposição. É preciso ter o estômago bem forte e, mesmo assim, nunca dá para realmente se acostumar", disse.

EFE dvg/jp

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