Veteranos de guerra suspendem laços com tabloide britânico

Royal British Legion se diz chocada com denúncia de que 'News of the World' monitorou parentes de militares mortos

iG São Paulo |

Uma organização que ajuda veteranos de guerra da Grã-Bretanha suspendeu nesta sexta-feira seus laços com o tabloide "News of the World", envolvido em um escândalo de escutas ilegais. Na quarta-feira, novas denúncias acusaram o jornal de ter grampeado telefone de parentes de militares britânicos mortos no Iraque e no Afeganistão.

Em resposta, a Royal British Legion, principal organização beneficente das Forças Armadas britânicas, decidiu suspender a publicação de anúncios no jornal, e retirá-lo da lista de parceiros em campanhas relativas aos veteranos de guerra.

Reuters
Mulher fala ao telefone em frente ao prédio da News International em Londres (06/07)

A organização também está decidindo se continuará anunciando em outras publicações do grupo News International, divisão responsável pelos jornais britânicos da News Corporation, empresa do magnata Rupert Murdoch.

"Não podemos fazer nenhuma campanha em nome das famílias dos militares no 'News of the World' enquanto ele é acusado de monitorar essas mesmas famílias em seu momento de maior tristeza", afirmou a organização, em comunicado. "Essas acusações nos chocaram."

Os números dos celulares teriam sido encontrados nos arquivos do detetive particular Glenn Mulcaire, que trabalhou para o tabloide, segundo o jornal "The Daily Telegraph".

Rose Gentle, mãe do fuzileiro Gordon Gentle, morto por uma bomba em Basra, no Iraque, em 2004, afirmou à BBC que há "muita raiva" entre as famílias dos soldados mortos. Segundo ela, muitos familiares estão agora se perguntando se estão entre os grampeados pelo jornal. "A polícia deveria contactar as famílias imediatamente para tirá-los do sofrimento da dúvida", disse.

Gentle pediu ainda que as investigações prometidas na quarta-feira pelo premiê David Cameron sejam iniciadas imediatamente e que se as denúncias forem comprovadas, os responsáveis sejam processados.

Jim Gill, padrasto do tenente Richard Shearer, morto no Iraque em julho de 2005, disse que o caso é “penoso”. “É penoso para todas as pessoas que foram grampeadas e especialmente às pessoas que enfrentam um luto”, disse ele ao programa Breakfast, da BBC.

Para Adrian Weale, representante do associação de militares Federação das Forças Armadas Britânicas, “esta é uma situação lamentável, se de fato ocorreu”. “Se você perde um parente numa situação operacional, é um momento de máxima angústia, de luto e desolação, e a ideia de que um tabloide esteja fuçando nas suas mensagens e ligações telefônicas privadas para encontrar sujeira para suas histórias é simplesmente inacreditável”, afirmou.

O coronel Richard Kemp, ex-comandante das forças britânicas no Afeganistão, disse que as acusações o deixaram “absolutamente sem palavras e com raiva”.

A empresa já vem sentindo o efeito do escândalo, com o anúncio do cancelamentos de publicidade por vários grandes anunciantes. Ações da News Corporation caíram mais de 3% na Austrália e nos Estados Unidos.

O News of The World é acusado desde 2006 de ter pagado detetives para interceptar mensagens telefônicas de celebridades, políticos e esportistas. O escândalo dos grampos ganhou força nesta semana com a descoberta de que o jornal também pagou para interceptar mensagens de famílias de vítimas dos atentados de 7 de julho de 2005, em Londres, e do celular da menina Milly Dowler , que desapareceu em 2002, aos 13 anos, e depois foi encontrada morta.

O então editor do jornal, Andy Coulson, renunciou ao comando do "News of The World" em 2007, após um de seus repórteres e um detetive terem sido condenados por grampear telefones de integrantes da família real britânica. No início deste ano, ele renunciou ao cargo de porta-voz do premiê, após terem surgido novas denúncias envolvendo jornalistas do News of The World e outras tentativas de invadir os telefones de políticos e celebridades.

A empresa já vem sentindo o efeito do escândalo, com o anúncio do cancelamentos de publicidade por vários grandes anunciantes. Além disso, ações da News Corporation caíram mais de 3% na Austrália e nos Estados Unidos.

Nesta quarta-feira, Murdoch disse que as alegações de interceptação telefônica e de pagamentos a policiais envolvendo o seu jornal são "deploráveis" e "inaceitáveis".

O magnata afirmou que a diretora executiva da News Corp., Rebekah Brooks - que era editora-chefe do "News of the World" à época das supostas escutas -, continuará no cargo.

O "News of The World" é o jornal mais vendido aos domingos na Grã-Bretanha, com uma circulação média de quase 2,8 milhões de exemplares.

Com AP e BBC

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