Depois de uma década no poder, o futuro do presidente da Venezuela Hugo Chávez estará em jogo neste domingo, quando mais de 16 milhões de venezuelanos são esperados nas urnas para decidir em referendo se aprovam ou não o fim do limite à reeleição. As últimas pesquisas de intenção de voto apontam que a emenda poderia ser aprovada por uma margem estreita de votos.

Um estudo extra-oficial do governo, porém, prevê uma vitória oficialista com uma vantagem entre oito e dez pontos sobre a opção do "Não".

Uma vitória do "Sim" permitirá ao presidente Hugo Chávez candidatar-se a um terceiro mandato presidencial, com o qual pretende consolidar um modelo socialista no país.

"No domingo, vocês decidirão meu destino político. A decisão de vocês é soberana (...) Eu farei o que vocês mandarem", afirmou Chávez na quinta-feira, durante ato de encerramento da campanha.

Para confirmar as projeções, o governo tenta recuperar cerca de 3 milhões de eleitores chavistas, que se abstiveram de votar no referendo de 2007, quando uma reforma constitucional mais ampla foi rejeitada nas urnas.

O motivo para o desencanto desses eleitores seria a ausência de políticas públicas capazes de combater problemas estruturais como a criminalidade, a inflação e a coleta de lixo.

Apesar disso, Chávez argumenta que ele é o único capaz de "garantir a paz" e a continuidade dos programas sociais que levaram a Venezuela a contar com uma queda significativa dos índices de pobreza.

A oposição, por sua vez, aposta na conquista do voto dos chamados "ni-nis" (que não estão nem com um grupo, nem com outro), e que correspondem a cerca de 26% do eleitorado e poderiam ter um papel decisivo no resultado final.

Para este grupo, a emenda constitucional afeta o princípio de alternância democrática.

"Não existe justificativa nenhuma para pretender mudar a Constituição, só para agradar a ambição de uma pessoa de querer governar além dos 14 anos (acumulados por dois mandatos consecutivos)", afirmou Antonio Ledezma, novo prefeito da Caracas.

Para o governo, o referendo é mais uma "prova do caráter democrático" da revolução bolivariana.

"Todos os avanços do nosso processo se fizeram e se farão sempre com a aprovação do povo venezuelano. Aqui não há possibilidade alguma que as coisas ocorram de outra maneira", afirmou à BBC Brasil Maximilien Arvelaiz, assessor de Assuntos Internacionais da Presidência.

Chávez enfrentará a oposição nas urnas mais fortalecido do que nas eleições regionais do ano passado, quando os partidos Pátria Para Todos (PPT) e Comunista (PC) romperam com a aliança governista e lançaram candidaturas próprias para os cargos de prefeitos e governadores.

Depois que a proposta de reeleição se estendeu a todos os cargos públicos, não apenas à Presidência, o PPT e o PC se reacomodaram no campo oficialista e reforçaram a campanha do "Sim".

De acordo com governistas, a proposta teria seduzido inclusive políticos opositores.

"Reclamam da boca para fora, porque acabaram fazendo campanha a favor do Sim", afirmou ao canal estatal o deputado oficialista Carlixto Ortega.

Além de ter enfrentado a poderosa máquina de propaganda do Estado durante a campanha, a oposição chega ao referendo de domingo dividida, desarticulada e carecendo da presença de um líder capaz de unificar os anseios dos eleitores anti-chavistas.

Uma vitória do "Sim" poderá ser interpretada por Chávez como um aval para radicalizar o governo. É o que espera a maioria dos simpatizantes do presidente.

"Depois da vitória temos que dar mais poder ao povo e ir-nos livrando dos falsos revolucionários que estão ao lado do presidente", afirmou o professor Adolfo Gonzalez, durante uma manifestação de apoio a emenda.

Para a oposição o desafio é ainda maior, independentemente do resultado do referendo, na opinião do historiador venezuelano Miguel Tinker Salas, do Pomona College, na Califórnia.

"Para a oposição não se trata apenas de ganhar uma eleição onde a opção é Sim ou Não. Se trata de ter um projeto diferente ao de Chávez para apresentar ao país", afirmou.

Mais de 140 mil efetivos das Forças Armadas estarão a cargo da segurança dos 11,6 mil centros de votação espalhados pelo país.

De acordo com o Conselho Nacional Eleitoral, o primeiro boletim com resultados "irreversíveis" será divulgado três horas depois do fechamento das urnas, previsto para ocorrer às 18h (hora local, 19h30 em Brasília).

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