Venezuela se endivida com a Rússia para comprar armas ante hipótese de agressão

O temor de uma possível agressão externa por causa de seus recursos energéticos levou a Venezuela a se endividar com a Rússia para adquirir armamento defensivo, em um panorama regional no qual falta transparência e consenso de políticas de defesa, opinaron analistas.

AFP |

Em função disso, os Estados Unidos se declararam preocupados com as compras de armas da Rússia anunciadas recentemente pelo presidente venezuelano Hugo Chávez e com seu impacto na região.

"Preocupa-nos em geral o desejo manifesto da Venezuela de desenvolver seu arsenal de armas, pois acreditamos que representa um sério desafio à estabilidade na América Latina", declarou o porta-voz do Departamento de Estado, Ian Kelly.

A Venezuela obteve um crédito de 2 bilhões de dólares para a compra de armamento da Rússia, informou no domingo o presidente Hugo Chávez, que destacou a aquisição de 92 tanques T72 e de um número não determinado de mísseis antiaéreos russos, após uma viagem internacional.

Na sexta-feira Chávez já havia dito que, em breve, chegarão ao país "foguinhos" russos, em referência a mísseis com alcance de até 300 km.

Falando em um ato público, Chávez disse que os mísseis russos de médio alcance, que "não falham", foram adquiridos para a "defesa e não para atacar ninguém".

"Firmamos uns acordos com a Rússia. Logo começarão a chegar uns foguetinhos. Você os coloca aqui e lança estes foguetinhos... E sabem quantos quilômetros alcançam?! Uns 300 quilômetros, e não falham", disse Chávez em um comício para celebrar sua recente viagem internacional.

"Estes são instrumentos de defesa, porque vamos defender o país de qualquer ameaça", disse para centenas de pessoas reunidas diante do Palácio de Miraflores, em Caracas.

Chávez, que considera a Rússia um "aliado estratégico", confirmou recentemente a compra de tanques russos do tipo BMP3, MPR e T-72, destinados principalmente a proteger a fronteira com a Colômbia, país com o qual a Venezuela congelou suas relações, em julho passado.

Em agosto, Chávez qualificou de "declaração de guerra" o acordo entre Colômbia e Estados Unidos para a utilização de sete bases no território colombiano por tropas americanas.

Entre 2005 e 2007, Chávez firmou acordos para a compra de armas russas totalizando 4,4 bilhões de dólares.

Neste período, a Rússia vendeu à Venezuela 24 caças Sukhoi-30, 50 helicópteros de combate e 100 mil fuzis de assalto Kalashnikov.

Para a analista Elsa Cardozo, esta é uma "compra importante que, do ponto de vista qualitativo e quantitativo, causa preocupação".

"O presidente disse que se sente ameaça, o que significa que há uma hipótese d conflito", explicou à AFP.

Já em 2008, a Rússia havia concedido um crédito de um bilhão à Venezuela para financiar a cooperação técnico-militar dos dois países.

A Rússia se converteu no mais importante provedor de armas da Venezuela, depois que, em 2006, os Estados Unidos restringiram a venda de armamento e material militar a Caracas, por considerar que não cooperava o suficiente contra o terrorismo.

Moscou também está interessado no petróleo venezuelano e pagou a Caracas um bono de um bilhão de dólares para que um consórcio de empresas russas tenha acesso à exploração de hidrocarbonetos na riquíssima Faixa do Orinoco.

O capital russo também está presente no setor aurífero venezuelano, onde o Estado, que assumiu o controle das principais minas nos últimos meses, deseja explorá-las através de um consórcio russo-venezuelano.

Para Cardozo, o mais preocupante é que os acordos de armamento entre a Rússia e a Venezuela acontecem num panorama regional em que se "abandonou a tendência de trabalhar cooperativamente e com transparência os temas da defesa".

Neste sentido, a analista citou, além das novas aquisições da Venezuela, as anunciadas compras de armas e aviões franceses "Rafale" por parte do Brasil e o convênio militar que permitirá aos Estados Unidos o uso de bases na Colômbia.

"No caso da Venezuela o assunto é ainda mais preocupante pela agressividade do discurso do presidente e por sua adesão ao discurso violento do Irã".

O Irã estaria ajudando a Venezuela a desenvolver um programa nuclear civil, segundo anunciou o próprio presidente Chávez, que descartou taxativamente o possível uso militar da energia atômica.

"Se a Venezuela quiser um programa nuclear para uso pacífico, deveria colaborar com o Brasil, que é um país vizinho, com o qual temos uma série de acordos e que não é questionado por ninguém no mundo", indicou Tarre.

nn/cn

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