Os exercícios militares que o governo russo realiza a partir desta segunda-feira com colegas venezuelanos têm mais importância econômica do que militar, na opinião de especialistas. Na avaliação de analistas ouvidos pela BBC Brasil, ao contrário do venezuelano Hugo Chávez, que trata os exercícios militares como uma estratégia para sua diplomacia que prega a multipolaridade, o governo russo estaria interessado, primeiramente, em incrementar o comércio de armas e tecnologia bélica com a Venezuela.

O aspecto político de enviar uma mensagem geopolítica para os Estados Unidos seria, na opinião dos especialistas, apenas secundário nas motivações russas.

Na avaliação de Rocío San Miguel, diretora da organização não-governamental Controle Cidadão, na semana passada o presidente russo, Dmitry Medvedev, esteve na Venezuela para explorar novos acordos na área de armamento, assim como avaliar a capacidade de cumprimento dos contratos já negociados.

"Na relação com a Venezuela, a Rússia não tem um conteúdo ideológico e sim um conteúdo essencialmente pragmático de venda de um produto atrativo não só para a Venezuela, como para os vizinhos, como Brasil", afirmou San Miguel.

A Venezuela é o principal cliente de Moscou na região. Desde 2004, a Venezuela já investiu US$ 6 bilhões na compra de armamentos russos. Desde então, foram comprados 24 aviões de combate Sukhoi-30, 53 helicópteros de transporte e ataque e 100 mil fuzis de assalto 7,62 AK 103.

Em entrevista publicada também na semana passada, o ex-ministro da Defesa, Raul Isaías Baduel, afirmou à BBC Brasil que o interesse da Rússia em seu país é de caráter essencialmente comercial.

"Para os russos, a Venezuela se tornou uma considerável oportunidade de negócios", afirmou Baduel, que rompeu com o governo Chávez no ano passado.

Geopolítica
O historiador Diego Bautista Urbaneja, da Universidade Central da Venezuela, avalia que os russos "estão jogando várias cartas ao mesmo tempo", tanto do ponto de vista econômico como político.

"Estão levantando pontes comerciais na região e no caso particular da Venezuela, que mantém uma permanente confrontação com os Estados Unidos, aproveitam para marcar uma presença do ponto de vista geopolítico, mas sem muita ênfase nisso", afirmou.

Na avaliação de Urbaneja "há um matrimônio de conveniências" na realização das manobras militares no Caribe e da aliança entre os dois países, cada qual buscando seu foco de interesse.

"Chávez dá um significado político com seu discurso anti-imperialista, com o qual a Rússia não tem tanta afinidade, mas que tampouco ignora", acrescentou o historiador.

Para Chávez, a Rússia é um aliado estratégico de seu país para alcançar a ruptura com o "mundo unipolar" marcado pela hegemonia dos Estados Unidos, com quem Caracas mantém uma severa crise há quase uma década.

Dmitri Medvedev diz concordar com esta visão. "Nas questões fundamentais da política internacional, nossas visões coincidem. Ambos buscamos um mundo onde se reconciliem as posições e este mundo não pode ser unipolar", afirmou o presidente russo durante a assinatura de sete acordos, entre eles um de cooperação nuclear para o desenvolvimento de energia.

Mais compras
Na avaliação da analista Rocío San Miguel, Dmitry Medvedev também pretende indicar aos Estados Unidos que seu aliado na região é um bom comprador que lhe garantiria presença na sua área de influência.

"Escolheram um momento chave para a realização das manobras militares que é a transição presidencial norte-americana indicando aos norteamericanos: tenho um cliente com o qual posso chegar longe e temos a possibilidade de manter presença permanente no hemisfério", afirmou San Miguel.

O governo dos Estados Unidos, porém, não se mostra preocupado com a presença dos ex-soviéticos no Caribe.

"Uns poucos barcos russos não vão mudar o equilíbrio de poder (...) não acredito que existam dúvidas sobre quem tem a preponderância do poder no hemisfério ocidental", afirmou, na quinta-feira, Condoleezza Rice, secretária de Estado americana.

Essa dimensão pode mudar, no entanto, no momento em que a Venezuela adquirir armas que incomodem ao governo americano, na avaliação de Rocío San Miguel.

"Se Chávez concretizar a compra de submarinos e o sistema de mísseis de longo alcance, aí sim poderia haver alguma preocupação dos Estados Unidos com a influência da Rússia na região", afirmou.

Manobras
Na quinta-feira, Chávez e Medvedev deram o início simbólico às manobras militares que serão realizadas entre os dias 1 e 3 de dezembro. A bordo do navio de guerra Almirante Chebanenko, Chávez disse estar "embargado de emoção".

Os exercícios militares serão realizados no mar territorial venezuelano, ao norte do país. Está previsto o ensaio de manobras de resgate, exercício de comunicações, de vigilância marítima e aérea e de luta contra o narcotráfico e o terrorismo.

Participarão da manobra quatro navios de guerra russos, entre os quais está Pedro, o Grande considerado um dos maiores navios de combate do mundo, com um total de 1.150 militares a bordo. Da parte venezuelana, estarão onze navios e oito aeronaves, com 600 efetivos.

Será a primeira vez, desde o final da Guerra Fria, que a Rússia realiza operações deste tipo na região, considerada uma área de influência dos Estados Unidos.

Chávez nega que os exercícios sejam uma provocação à Casa Branca. "Nossa missão é uma missão de paz. Nos esta levando a um mundo equilibrado multipolar", afirmou o mandatário venezuelano.

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