Venezuela reitera oferta de apoio militar a Morales

O governo da Venezuela exercerá seu direito à rebelião para restituir o governo legítimo de Evo Morales em caso de um golpe de Estado na Bolívia - apesar da rejeição das Forças Armadas bolivianas à idéia -, disse o ministro das Relações Exteriores venezuelano, Nicolás Maduro. O direito internacional estaria sendo violado e teríamos não só o direito, mas o dever de atuar para preservar o respeito às regras internacionais, afirmou Maduro.

BBC Brasil |

Em entrevista à BBC Brasil, o chanceler venezuelano afirmou que as Forças Armadas bolivianas não souberam interpretar a oferta de apoio armado do presidente Hugo Chávez, principal aliado de Morales na região, ao país vizinho.

Ele acrescentou que a América Latina não ficaria de braços cruzados se Morales fosse derrubado. "Já foi o tempo em que os EUA promoviam golpes e os demais países assistiam sem reagir."
Leia a seguir os principais trechos da entrevista de Nicolás Maduro à BBC Brasil:
BBC Brasil - O comandante-chefe das Forças Armadas da Bolívia, Luis Trigo, rejeitou a oferta do presidente Hugo Chávez de intervir militarmente no país no caso de um golpe de Estado. Qual a opinião do governo venezuelano a respeito?Nicolás Maduro- Que bom seria se esse militar se pronunciasse contra a ingerência histórica e atual dos EUA na Bolívia e acompanhasse com lealdade o presidente Evo Morales. Estamos em um contexto histórico de união e de afronta a qualquer perigo que coloque em risco nossas Repúblicas. Considero que foi um erro de interpretação deste general, que não entendeu o chamado solidário do presidente Chávez em apoio à Bolívia.

BBC Brasil - Qual seria a reação do governo venezuelano se Evo Morales fosse derrubado?Maduro - Evo Morales foi eleito democraticamente e há um mês foi ratificado com mais de 67% dos votos em um referendo. Não toleraríamos um golpe de Estado contra esse governo. Toda a América Latina sairia a defender o povo da Bolívia, assim como no século 19, quando nossos heróis libertaram nosso continente do domínio espanhol.

BBC Brasil - Mas estamos no século 21 e a legislação internacional prevê a inviolabilidade territorial dos Estados. Uma ação do governo não poderia ser interpretada como ingerência?Maduro - Se Evo Morales fosse derrubado por esses grupos violentos apoiados pelos EUA, o direito internacional estaria sendo violado e teríamos não só o direito, mas o dever de atuar para preservar o respeito às regras internacionais, aos governos legítimos e ao direito à vida de nossos povos. Não ficaremos de braços cruzados. Já foi o tempo em que os EUA promoviam golpes e os demais países assistiam sem reagir. A oligarquia boliviana que não se equivoque: se tentarem um golpe, exerceremos nosso direito à rebelião. Somos o mesmo povo.

BBC Brasil - O senhor acredita que há uma possibilidade real de golpe de Estado na Bolívia?Maduro- Está a caminho um plano de golpe parecido com o que promoveram contra Jean Bertrand Aristide, no Haiti, ou Juan Domingo Perón, na Argentina, que eram governos essencialmente populares. Mas o governo dos EUA conseguiu incorporar cenários de violência, de racismo, para logo derrubá-los.

BBC Brasil- Na Bolívia as organizações separatistas que se opõem a Evo Morales estão à frente das manifestações.Maduro - Obviamente a oligarquia racista boliviana é o principal fator nesse cenário de desestabilização. Mas nenhum desses grupos moveria um dedo contra um governo com tamanho apoio popular como o de Evo se não tivessem o apoio político, financeiro e de planejamento do governo dos EUA. Disso não há que duvidar.

BBC Brasil - Depois da expulsão do embaixador dos EUA em Caracas e da idêntica resposta do governo dos EUA, qual é a situação política e diplomática neste momento entre os dois países. Há possibilidade de ruptura das relações?Maduro - Estamos revendo as relações e reagiremos de acordo com a atuação do governo dos EUA. Estamos vivendo o pior momento das relações dos EUA com a América Latina e o Caribe. Esperamos em algum momento que os EUA façam uma retificação histórica, recomponha sua política e respeite os países da região.

BBC Brasil- O que levou o governo a expulsar o embaixador dos EUA Patrick Duddy?Maduro - Tivemos que atuar com firmeza frente às tentativas descaradas de desestabilização e de violência que o governo dos EUA apóia na Bolívia e frente à participação de representantes do governo dos EUA na conspiração contra o presidente Chávez ao longo desta década, particularmente em uma tentativa de golpe e magnicídio (assassinato de pessoa ilustre) que recentemente estava sendo planejada por militares venezuelanos e que tornamos pública.

BBC Brasil - O governo venezuelano tem provas disso?Maduro - (Em situações como essa) sempre está as mãos do embaixador dos EUA. Sabemos que funcionários (da embaixada) se reuniram com as pessoas que pretendiam realizar o complô, eles viajam permanentemente aos EUA. Nas próximas semanas serão reveladas essas provas, assim como aconteceu no golpe de 2002 contra o presidente Chávez. Denunciamos antes e durante o golpe, e ao final, nos documentos desclassificados do governo dos EUA, apareceram as provas que nós haviamos denunciado.

BBC Brasil - Em consequência da escalada da crise entre Venezuela e EUA, haveria alguma possibilidade de que os EUA, que é o principal comprador do petróleo venezuelano, deixasse de comprar o produto de seu país? Quais seriam as consequências?Maduro - Isso para eles é impossível, eles não têm como fazer isso. Se fizessem, nós tranqüilamente colocaríamos nosso petróleo no mercado internacional. Sobra mercado no mundo para colocar o petróleo venezuelano.

BBC Brasil - As relações entre EUA e Venezuela chegaram a seu pior momento, ao mesmo tempo em que o governo venezuelano estreita a cooperação militar com a Rússia. O senhor considera que está ocorrendo uma reedição da Guerra Fria?Maduro - A Guerra Fria correspondia a um mundo bipolar. Hoje estamos frente a um mundo multipolar, que quer paz, soberania e respeito do direito ao desenvolvimento econômico autônomo e livre. Uma pequena parte do mundo, que é a elite que governa aos EUA, é que quer manter um sistema unipolar de dominação. Não há nenhuma Guerra Fria, há uma grande luta quente por nascer e viver em um mundo multipolar, sem impérios.

BBC Brasil - Qual é a mensagem que o governo pretende enviar aos EUA ao aceitar a realização de uma manobra naval conjunta com a Rússia no Caribe?Maduro - Estamos mostrando que a América Latina e o Caribe deixaram de ser o quintal dos EUA. Antes somente os EUA podiam realizar manobras militares na região. Agora isso acabou. Somos independentes e podemos estabelecer cooperação com qualquer país, para compartilhar tecnologia. Os EUA tentaram nos bloquear militarmente quando decidiram não vender-nos armas, mas nós fomos capazes de superar este bloqueio tecnológico e hoje temos cooperação com outros países.

BBC Brasil - O presidente Hugo Chávez reitera que os EUA poderiam agredir a Venezuela para tentar derrubá-lo e controlar o petróleo venezuelano. Se essa incursão militar ocorresse, seu governo pensa em contar com ajuda militar da Rússia?Maduro - Para defender nosso território basta o nosso povo.

BBC Brasil - Qual a relação das manobras navais que serão realizadas pelo governo venezuelano e russo no Caribe, em novembro, com a crise no Caucaso e a presença da frota naval norte-americana no mar Negro, fronteira sul da Rússia?Maduro - Não há relação direta. Um exercício conjunto deste tipo não se resolve do dia para a noite e o exercício militar já havia sido discutido há meses, antes mesmo do conflito no Cáucaso. Além disso, há alguns anos já vínhamos fortalecendo a cooperação com a Rússia na área militar.

BBC Brasil - E indiretamente os fatos estão relacionados?Maduro - Indiretamente... eu deixo aberto à interpretação.

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