Venezuela põe guardas em ônibus para conter assaltos

Ônibus municipais e intermunicipais da capital venezuelana, Caracas, começaram a circular com guardas - alguns armados - para proteger os usuários do transporte público contra assaltos. Passageiros entrevistados pela BBC na capital manifestaram apoio ao chamado plano Rota Segura, que começou a ser implementado na quarta-feira, três dias após o presidente Hugo Chávez declarar, em seu programa Alô, Presidente, que se tivermos que por um guarda nacional em cada ônibus, o faremos.

BBC Brasil |

Segundo a Federação Nacional de Transportes (FVT), pelo menos 20 mil veículos operam em Caracas e na região metropolitana, o que levanta dúvidas sobre a viabilidade do plano - juntas, todas as forças militares venezuelanas têm um efetivo de 60 mil homens.

"Se for necessário trazer gente dos comandos regionais do interior do país, vamos trazê-los", disse nesta quarta-feira o comandante da Guarda Nacional, general Alírio José Ramírez, em declarações disseminadas pela agência oficial do governo bolivariano.

Segundo o instituto de pesquisas Datanálisis, em abril de 2008, a falta de segurança era o problema mais importante para 51% dos pesquisados, bem à frente de temas como emprego ou saúde.

Mas este não é um problema de percepção - as cifras oferecem razões para o temor. De acordo com o Observatório Venezuelano de Violência, uma organização não-governamental que usa informações oficiais, Caracas teve no ano passado 2.710 mortes violentas.

Isto significa uma média de 130 homicídios por 100 mil habitantes. Na capital colombiana, Bogotá, uma cidade tradicionalmente considerada perigosa, a taxa é de 19 a cada 100 mil habitantes.

Na região metropolitana de São Paulo, os números para 2006 indicaram menos de 24 por 100 mil habitantes - na cidade, menos de 22 a cada 100 mil, segundo a Fundação Seade. No mesmo ano, a taxa para o Estado do Rio de Janeiro foi de cerca de 40, segundo o Instituto de Segurança Pública.

Entretanto, como toda estatística na Venezuela, há uma permanente polêmica em relação aos dados. Enquanto o Ministério do Interior acusa os meios de comunicação de "superdimensionar" o problema com finalidade política, a imprensa e ONGs acusam o governo de "maquiar" as cifras para tapar o problema.

Falta de registro
Representantes da FVT disseram à BBC que diariamente sofrem dezenas de assaltos, mas que a maioria não é registrada junto às autoridades. Além disso, nove motoristas de ônibus foram assassinados só neste ano.

"Os motoristas saem para o trabalho com um crucifixo nas mãos, para ver se regressam à noite", disse um diretor da FVT, Alfredo Jiménez. Segundo ele, os ônibus são alvo dos ladrões porque seriam "como um caixa eletrônico sobre rodas".

Apesar de a insegurança se verificar em todas as linhas de ônibus, tanto urbanas como rurais, são as últimas que se mostram mais vulneráveis.

No caso das urbanas, as mais expostas são as que transitam nas fronteiras da "cidade formal", já que é nas zonas mais pobres ou marginais que há menos vigilância policial.

"(O plano) está muito bem. O problema é que os malandros não sobem aqui, sobem fora do terminal", disse Titio Lozano, um passageiro com quem a BBC conversou no centro da cidade. "Os motoristas recolhem os passageiros fora do ponto e isto está proibido."
Apesar de o "Rota Segura" significar que os guardas nacionais podem fazer baixar os passageiros para abordá-los, a maioria dos usuários entrevistados pela BBC disse estar satisfeita pelo que consideram uma melhora na "sensação de segurança".

"É que basta ler o jornal que você se dá conta de que sim, existe um alto índice de criminalidade no transporte público", disse John Caravallo, que nunca passou pela experiência de um assalto mas está sempre à espera de que "algo ocorra".

Para o setor de transporte, o plano é positivo, mas deveria ser integral para toda a cidade.

"É lógico que se houver um guarda no ônibus os ladrões não vão subir. Mas e quanto as outras comunidades? As pessoas que caminham?", questiona Jiménez, da FVT. "Deveria haver segurança para toda a comunidade."
Com informações de Carlos Chirinos, da BBC Mundo em Caracas.

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