Autoridades venezuelanas acompanhadas de oficiais do Exército tomaram temporariamente, nesta sexta-feira, a fábrica de macarrão da multinacional norte-americana Cargill, na Venezuela, alegando que a empresa não cumpre com as normas de abastecimento do produto vigentes no país. De acordo com o vice-ministro de Alimentação, Rafael Coronado, a Cargill estava desrespeitando a lei, ao afirmar que apenas 20% do macarrão empacotado pela empresa era destinado ao mercado de produtos com preços tabelados pelo governo.

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Vice-ministro de Alimentos, Rafael Coronado (centro),
acompanha soldados em ocupação da Cargill

A legislação venezuelana que regula os preços dos alimentos da cesta básica determina que as empresas devem destinar 70% da sua produção para as mercadorias com preços congelados. No caso do macarrão, o quilo do produto deve ser vendido a cerca de US$ 1,50.

Coronado disse que é "dever" das empresas privadas e do Estado garantir à população "acesso a um produto de alta qualidade e com preço justo".

Ainda de acordo com o vice-ministro, a intervenção na Cargill "busca garantir segurança alimentar aos venezuelanos".

As autoridades dizem que a intervenção é "temporária" e poderia durar até 90 dias. Procurada pela BBC Brasil, a Cargill na Venezuela disse por meio de sua assessoria de imprensa que por enquanto não comentará o assunto.

Estatização

Essa não é a primeira vez que o governo toma medidas contra a Cargill. Em março, o governo ordenou a estatização da fábrica de arroz da empresa, alegando que além de "burlar a legislação" por não produzir arroz de tipo tabelado, a Cargill estaria contrabandeando o produto para a vizinha Colômbia.

Na época, representantes dos setores agroindustriais rejeitaram a medida, alegando que a intervenção era contraproducente e violava a liberdade econômica dos produtores.

A crise entre governo e as empresas privadas do setor de alimentos se arrasta desde o locaute empresarial de 2002, no auge da crise política do país, quando os principais produtores paralisaram a produção e abastecimento de alimentos por 62 dias, em uma tentativa de derrocar o governo de Hugo Chávez.

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Soldado monta guarda em frente à fábrica de macarrão, Cargill

As consequências dessa permanente disputa têm sido o eventual desabastecimento de produtos da cesta básica nas grandes redes de supermercados.

O governo acusa os empresários de especulação e estocagem de alimentos com o fim de gerar um falso desabastecimento no país.

Já os empresários do setor, argumentam que as regras impostas pelo governo para a comercialização tornariam a atividade pouco competitiva e desestimularia a produção.

Banco

Nos últimos anos, Chávez tem declarado que pretende romper com o monopólio privado da produção de alimentos.

Sob este argumento, o governo não só tem incrementado a fiscalização nas empresas do setor, como também tem radicalizado as medidas de expropriações de terra consideradas improdutivas para serem destinadas à produção de alimentos.

Além do setor agrícola, desde 2007, o governo tem tomado controle dos setores considerados estratégicos. Desde então, foram nacionalizadas as companhias de telecomunicações e de eletricidade, a faixa petrolífera do rio Orinoco, a maior indústria siderúrgica do país e três empresas de cimento.

Na próxima semana de verá ser concretizada a estatização de uma das maiores instituições financeiras do país, o Banco da Venezuela, que pertence ao grupo espanhol Santander.


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