Venezuela diz que combateu guerrilheiros colombianos

Uribe acusa país de abrigar guerrilheiros das Farc e estuda acusação no Tribunal Penal Internacional

iG São Paulo |

O embaixador da Venezuela na Organização dos Estados Americanos (OEA), Roy Chaderton, declarou nesta sexta-feira que o território venezuelano foi invadido diversas vezes por guerrilheiros colombianos, contra quem já tiveram vários confrontos na fronteira.

"Isso se deve precisamente ao fato de que as forças de segurança colombianas não puderam, não souberam e não quiseram defender seus espaços territoriais, e nós não temos porque pagar por essas falhas com esse escândalo midiático", disse o diplomata.

Um dia depois da ruptura das relações diplomáticas entre Colômbia e Venezuela , Chaderton argumentou em entrevista à rádio "Caracol", em Washington, que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o Exército de Libertação Nacional (ELN) são problemas do governo colombiano, e não dos países vizinhos afetados por essas organizações ilegais.

"Nós entregamos guerrilheiros das Farc e do ELN ao atual governo da Colômbia ao longo destes anos, assim como nos governos anteriores. Já houve combates, mas isso não se registra, nem ninguém se lembra", declarou o embaixador, acrescentando que a soberania da Venezuela é violada há mais de 70 anos e que essa situação é problema do Estado colombiano, que abandonou a fronteira.

Segundo Chaderton, muitos soldados e oficiais venezuelanos já foram mortos em combate com os invasores colombianos e que há um bom histórico de entregas e devoluções de guerrilheiros, paramilitares e traficantes à Colômbia. "Mas isso ninguém registra porque o problema é que preferiram viver sobre uma espécie de realismo mágico midiático", disse.

Guerrilheiros na Venezuela

Ontem, a Colômbia entregou na OEA as coordenadas dos supostos acampamentos de guerrilheiros na Venezuela para sustentar suas denúncias de que o país vizinho abriga líderes das Farc e do ELN.

EFE
Foto divulgada pela Colômbia mostra líderes das Farc acampamento supostamente localizado na região de Sorotaima, em território venezuelano
O representante da Colômbia na OEA, Luis Hoyos, apresentou ao organismo um extenso dossiê com supostas "coordenadas precisas" que provariam a presença de grupos guerrilheiros colombianos na Venezuela. Por meio de mapas, Hoyos denunciou a "presença consolidada, ativa e crescente desses grupos terroristas na Venezuela", dizendo possuir dados que confirmam a existência de 87 acampamentos em solo venezuelano.

"Os acampamentos não são novos e continuam se consolidando", disse o diplomata colombiano, em sua exposição durante a sessão extraordinária do Conselho Permanente da OEA. Em seu discurso, que também contou com fotos e imagens aéreas, Hoyos se concentrou nas informações sobre quatro localidades, que abrigariam os acampamentos Ernesto, Berta, Bolivariano e Jesus Santrich, situados "23 quilômetros para dentro do território venezuelano".

"Caso a Venezuela diga que essas fotos são montagens e essas informações não são verdadeiras, é fácil verificá-las. É só visitar esses lugares, ver os caminhos, os acampamentos e, principalmente, conversar com os desmobilizados", declarou o diplomata, referindo-se a guerrilheiros desertores que teriam concedido as informações ao governo de Álvaro Uribe. "(Os desmobilizados) também trazem dados e informações, porque estão cansadas da vida de crime. Todas têm cerca de 22, 23 anos", afirmou.

Corte de relações

As acusações de Bogotá fizeram o mandatário venezuelano Hugo Chávez romper as relações diplomáticas com o governo do presidente Álvaro Uribe.

O anúncio da ruptura das relações foi feito por Hugo Chávez após uma sessão extraordinária do Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos (OEA), em Washington, na qual a Colômbia apresentou supostas provas que comprovariam a existência de 87 acampamentos guerrilheiros em solo venezuelano.

"Não nos resta, por dignidade, mais que romper totalmente as relações com a Colômbia, com lágrimas no coração", afirmou Chávez, na sede do governo em Caracas, ao lado de Diego Maradona, que visita o país.

"Esperamos que não aconteça nada mais grave nesses dias que restam a (o presidente colombiano, Álvaro) Uribe. Há uma loucura desatada no palácio de Nariño (sede do governo colombiano)", afirmou. "Uribe é capaz de montar um acampamento simulado do lado venezuelano para atacá-lo e causar uma guerra", acrescentou.

O presidente venezuelano disse ter pedido "alerta máximo" aos militares na fronteira com a Colômbia. "Não aceitaremos nenhum tipo de agressão".

Chávez disse esperar que Juan Manuel Santos modifique a relação entre os dois países e negou que seu governo seja conivente com as guerrilhas. "Não permitimos acampamento guerrilheiro. Se houvesse seria sem a permissão do governo venezuelano", afirmou. O ministro das Relações Exteriores, Nicolás Maduro, disse ter dado um prazo de 72 horas para que os funcionários da embaixada da Colômbia em Caracas deixem a Venezuela.

"Erro histórico"

O embaixador da Colômbia na OEA, Luis Alfonso Hoyos, considerou a decisão de Chávez "um erro histórico" e "imoral". "O governo da Venezuela deveria romper relações com os grupos que sequestram, que assassinam, que estão dedicados ao narcotráfico e não com um governo legitimamente constituído", disse Hoyos à rede Caracol.

AFP
Partidários de Chávez assistem pronunciamento de Hoyos pela televisão em Caracas

"Creio que voltar ao expediente de sempre de romper relações, de embargar-nos economicamente, é simplesmente uma atitude imoral e não se corresponde com a tradição do povo venezuelano", acrescentou.

A Venezuela rompeu relações com a Colômbia em 2008, quando o exército colombiano invadiu o Equador para bombardear um acampamento das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, o principal grupo rebelde de esquerda colombiano), mas depois voltou atrás.

Em 2009, Chávez "congelou" as relações políticas e comerciais com Bogotá depois da assinatura do acordo militar entre Colômbia e Estados Unidos que permite a tropas americanas o uso de sete bases militares colombianas.

O secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, pediu que o governo dos dois países dialoguem. "Faço um pedido para que acalmem os espíritos e busquem um caminho para resolver as diferenças", disse. "Fomos capazes de superar há alguns anos crises graves. Espero que agora também", ressaltou Insulza.

* Com EFE, AP, Reuters e BBC Brasil

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