Vazamento de documentos sobre negociações de paz gera crise entre palestinos

Israel ocupa a Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, desde 1967

BBC Brasil |

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O vazamento de documentos supostamente relacionados às negociações de paz entre Israel e palestinos nos últimos dez anos pela TV árabe Al-Jazeera provocou uma crise política entre autoridades palestinas. Segundo a Al-Jazeera, os documentos revelam que negociadores da Autoridade Palestina teriam manifestado a disposição, em 2008, de fazer concessões significativas a Israel, incluindo permitir que Israel anexasse praticamente todos os assentamentos judaicos construídos em Jerusalém Oriental em troca de terras em outras regiões.

Israel ocupa a Cisjordânia e Jerusalém Oriental desde 1967, e desde então já estabeleceu mais de cem assentamentos na região, com cerca de 500 mil colonos judeus. A divulgação dos documentos - que a Al-Jazeera decidiu compartilhar com o jornal britânico The Guardian - está sendo chamada de maior vazamento da História do conflito no Oriente Médio. A BBC não pôde confirmar de forma independente a veracidade dos documentos.

O negociador-chefe palestino, Saeb Erekat, citado pelos documentos como mensageiro da proposta a Israel, negou a veracidade dos documentos e disse que as informações divulgadas pela Al-Jazeera são "um monte de mentiras". Um porta-voz do grupo Hamas, que controla a Faixa de Gaza e é rival do Fatah (partido que controla a Autoridade Palestina), afirmou que os documentos revelam "a face vergonhosa da Autoridade, e o seu nível de cooperação com a ocupação (israelense)".

Analistas afirmam que o vazamento deve prejudicar a Autoridade Palestina e enfraquecer seu líder, o presidente palestino Mahmoud Abbas. Temas como o futuro de Jerusalém ou outras questões tratadas nos documentos - como o direito do retorno de refugiados palestinos a suas terras em Israel - são considerados altamente sensíveis nas negociações de paz no Oriente Médio.

A Al-Jazeera disse que divulgará ao longo desta semana 16.076 documentos secretos incluindo atas de reuniões, e-mails e comunicações entre palestinos, israelenses e autoridades americanas, realizadas entre 2000 e 2010.

Reuters
Presidente palestino, Mahmoud Abbas, em entrevista hoje ao lado do embaixador palestino no Egito, Barakat Al-Farra (direita), e o negociador-chefe palestino, Saeb Erekat

Jerusalém

De acordo com a Al-Jazeera, os documentos teriam sido vazados pelo lado palestino. Eles sugerem que os palestinos teriam concordado com a anexação por Israel de todos os assentamentos judaicos construídos na Jerusalém Oriental, exceto um - o Har Haroma.

Pela proposta, que teria sido feita pela Autoridade Palestina em 2008, os palestinos cederiam em sua reivindicação por Jerusalém Oriental e receberiam em troca terras no norte do vale do Jordão, no sul do Monte Hebron e ao leste da Faixa de Gaza. Negociadores palestinos teriam proposto ainda a criação um comitê internacional para administrar os locais sagrados para o islamismo em Jerusalém e a limitação a 100 mil no número de refugiados palestinos autorizados a retornar a Israel num prazo de dez anos.

Ainda de acordo com os documentos, o negociador-chefe palestino, Saeb Erekat, teria sugerido a criação de "um comitê ou uma autoridade criada para as decisões" sobre a Esplanda das Mesquitas ou Monte do Templo - local importante tanto para muçulmanos como judeus. Os documentos dão a entender que questões cruciais para os palestinos poderiam ter sido negociadas sem consulta da população palestina.

'Monte de mentiras'

Em entrevista concedida à Al-Jazeera na noite de domingo, Erekat foi veemente ao rechaçar a veracidade dos documentos: "Se tivéssemos cedido na questão dos refugiados e feito tais concessões, por que Israel não teria assinado um acordo de paz?", questionou Erekat. O presidente palestino, Mahmmoud Abbas, declarou que os países árabes estão a par de todos os passos nas negociações com Israel. "A Autoridade Palestina não esconde nada", disse Abbas. Outros negociadores palestinos ainda afirmaram que parte dos documentos foram fabricados, "como parte de uma incitação contra a liderança da Autoridade Palestina".

O porta-voz do grupo Hamas Sami Abu Zuhri afirmou que os documentos mostrariam "o nível do envolvimento da Autoridade do Fatah nas tentativas de liquidar a causa palestina, particularmente na questão de Jerusalém e dos refugiados, e seu envolvimento contra a resistência na Cisjordânia e na Faixa de Gaza".

Já do lado israelense, antigos funcionários do gabinete de Ehud Olmert - primeiro-ministro de Israel quando essas propostas teriam sido feitas - disseram que há "muitas imprecisões" nos documentos vazados. Outras fontes israelenses envolvidas nas negociações também rechaçaram a maioria dos vazamentos.

Segundo analistas, os documentos vazados podem enfraquecer a posição do presidente Abbas e eventualmente fortalecer o Hamas, que controla a Faixa de Gaza desde 2007, e disputa com o Fatah, partido do presidente Abbas, a liderança da Autoridade Palestina. A Al-Jazeera anunciou que vai liberar as centenas de documentos a que teve acesso ao longo desta semana.

As negociações de paz entre Israel e palestinos estão suspensas há vários meses, por causa da recusa de Israel em atender ao pedido palestino e americano de interromper as construções em assentamentos nas áreas ocupadas.

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