Vaticano considera não haver contraposição entre fé e evolução

Juan Lara. Cidade do Vaticano, 11 fev (EFE).- O Vaticano acredita que não existe, a priori, contraposição entre fé e a ideia da evolução, ainda que o papa Bento XVI não compartilhe das teorias que explicam a existência da humanidade só como resultado do acaso e que, para João Paulo II, Darwin não bastasse para explicar a origem do homem.

EFE |

Com eventos em todo o mundo em homenagem aos 200 anos de nascimento do cientista britânico, celebrados amanhã, e o 150º aniversário de seu livro "A Origem das Espécies", lançado em novembro de 1859, o Vaticano destacou que a Igreja Católica nunca condenou Charles Darwin.

Segundo o presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, arcebispo Gianfranco Ravasi, o livro do cientista britânico nunca foi parar no Index Librorum Prohibitorum - índice de textos proibidos da Igreja.

No último século, tanto o papa Pio XII como João Paulo II se manifestaram sobre a evolução.

Em sua encíclica "Humani Generis" (1950), Pio XII já dizia que o "magistério da Igreja não proíbe o estudo da doutrina do evolucionismo, que busca a origem do corpo humano em matéria viva preexistente".

Naqueles tempos, Pio XII insistia em afirmar que "a fé católica manda defender que as almas são criadas imediatamente por Deus".

O pontífice encorajava um confronto "sério, moderado e temperado".

Em 22 de outubro de 1996, João Paulo II fez um grande discurso na Pontifícia Academia das Ciências afirmando que a evolução "já não era uma mera hipótese, mas uma teoria".

Após declarar, como Pio XII, que era importante não perder de vista alguns pontos pré-determinados, João Paulo II reconheceu que a convergência dos resultados de trabalhos realizados independentemente nesse campo constituía "um argumento significativo a favor dessa teoria".

O antecessor de Bento XVI declarou que a Igreja estava interessada diretamente na questão da evolução, porque esta influi na concepção do homem, "sobre o qual - disse - a Revelação mostra que foi criado a imagem e semelhança de Deus".

O papa polonês ainda afirmaria anos depois que "não basta a evolução das espécies para explicar a origem do gênero humano, como não basta a casualidade biológica para explicar por si só o nascimento de uma criança".

Já Bento XVI sempre defendeu a chegada à fé por meio da razão, apoiando o diálogo entre fé e ciência.

Da mesma forma que seus antecessores, o atual pontífice declara que não há oposição entre "a fé da compreensão da criação e a evidência empírica da ciência".

O papa atual não compartilha, no entanto, do evolucionismo radical. Em visita à Alemanha em setembro de 2006, criticou o que chamou de "essa parte da ciência que se empenha em buscar uma explicação ao mundo na qual Deus é supérfluo".

Joseph Ratzinger considerou na ocasião "irracionais" as teorias que consideram a existência da humanidade um "resultado do acaso" e destacou que, para os cristãos, "Deus é o criador do céu e da terra e que para entender a origem do mundo é preciso ter Deus como ponto de referência".

Para Bento XVI, afirmar que a fundação do cosmos e sua evolução estão na sabedoria divina "não quer dizer que a criação só tem a ver com o começo do mundo e da vida".

"Implica também que Deus abarca essa evolução e a apoia, a sustenta continuamente", completou recentemente o papa na Pontifícia Academia das Ciências.

Em 2005, no início de seu pontificado e com o objetivo de superar os receios entre ciência e fé e para recuperar a unidade do saber, o Vaticano deu início ao projeto Stoq (Ciência, Teologia e Pesquisa Ontológica, na sigla em inglês).

O Stoq é considerado um dos mais prestigiosos programas de pesquisa existentes no mundo sobre a relação entre ciência, filosofia e teologia.

Foi criado para ser "fruto do renovado espírito de diálogo entre teologia católica e ciência, inaugurado pelo Concílio Vaticano II e que culminou com a revisão do caso Galileu", segundo afirmou o então "ministro da Cultura" do Vaticano, cardeal Paul Paupard.

Segundo Paupard, o Stoq finca as bases para uma verdadeira mudança de mentalidade com relação à ciência dentro da Igreja Católica.

"Privilegiando conhecer a verdade, a Igreja não pode ignorar a ciência. A religião pode purificar a ciência da idolatria do cientificismo e dos falsos absolutos", afirmou Paupard. EFE jl/fr/rr

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