Vários interesses guiam diplomacia do Brasil no Irã

Para analistas, além dos objetivos comerciais, País quer projetar-se como potência mundial e proteger seu próprio programa nuclear

Leda Balbino, iG São Paulo |

A ânsia de consolidar-se como uma potência emergente, o desejo de ampliar seus acordos econômicos e o objetivo de preservar seu próprio programa nuclear são as motivações da diplomacia do Brasil em relação ao Irã, opinam analistas ouvidos pelo iG .

Neste fim de semana, essa posição ganha ainda mais projeção com a visita que o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, faz a Teerã, onde se reúne no domingo com o líder supremo iraniano, Ali Khamenei, e o presidente Mahmoud Ahmadinejad. Na sexta-feira, Lula disse que tentaria alcançar na visita um acordo sobre o programa nuclear iraniano , que a comunidade internacional suspeita ter fins militares. Segundo o Irã, seu programa nuclear tem apenas objetivos civis.

A viagem ocorre em meio aos esforços dos EUA de aprovar no Conselho de Segurança da ONU uma quarta rodada de sanções contra o país. O Brasil é contra as punições e defende o diálogo para pôr fim ao impasse. Se for bem-sucedido no Irã, o País espera fortalecer ainda mais seu papel internacional para conseguir uma cadeira permanente em uma eventual reforma do Conselho de Segurança da ONU.  

Como poder regional na América Latina e aspirante a poder global, o Brasil não pode ser visto como um país suscetível aos ditames dos EUA, afirmou Farideh Farhi, da Universidade do Havaí. Para ela, com o Irã o Brasil expõe uma política externa independente de Washington. “Se o Brasil está ficando mais ousado em sua relação com Teerã, provavelmente é porque o atual governo se sente mais confiante em marcar posição em relação aos EUA e buscar seus interesses no Oriente Médio”, afirmou a especialista em Irã.

A opinião é compartilhada pelo analista de segurança nacional Douglas Farah, para quem o Brasil quer se projetar no cenário mundial e possivelmente se tornar um importante ator no Oriente Médio. “O relacionamento com o Irã está dentro dessa estratégia global”, afirmou Farah, que é membro do International Assessment and Strategy Center (Centro Internacional de Análise e Estratégia, em tradução livre), na Virgínia. 

O analista, porém, faz a ressalva de que o Brasil precisa apoiar os esforços da comunidade internacional e manter transparentes suas relações com o Irã para não prejudicar suas relações com outros países , como os EUA.

A mesma advertência faz Peter Hakim, presidente do instituto de análise política Inter-American. Segundo o especialista em América Latina, a independência brasileira é útil no âmbito internacional e com certos grupos dentro do Brasil, mas causa atritos com Washington que podem prejudicar as aspirações internacionais do País em longo prazo.

Aspirações nucleares

Para Hakim, a expansão do programa atômico brasileiro também justifica a posição do País em relação ao Irã. O Brasil prevê dominar o ciclo nuclear em julho, quando inicia os testes para produção de gás de urânio enriquecido. Ao produzi-lo, o País poderá empregar a substância na Defesa Nacional, como combustível para submarinos nucleares.

Também há previsão de que o programa nuclear brasileiro receba grandes investimentos nos próximos anos, com o objetivo de que, em duas décadas, tenha seis novas centrais de energia nuclear além das atuais usinas de Angra 1, Angra 2 e Resende, no Rio de Janeiro, e de Aramar, em São Paulo.

“O Brasil pretende desenvolver tecnologia nuclear sem grande supervisão da comunidade internacional”, disse Hakim, referindo-se à resistência do Brasil à pressão dos EUA para assinar o protocolo adicional ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), que permitiria inspeções mais invasivas da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

Como tem um sistema exclusivo para o enriquecimento de urânio, o Brasil se nega a assinar o protocolo. Para o governo, a legislação brasileira é diferenciada, pois até mesmo a Constituição proíbe o uso da energia atômica para o desenvolvimento de armas. “O País vê seu programa nuclear como um direito, e então defende o do Irã”, afirmou Hakim.

Farideh, da Universidade do Havaí, concorda. “Considerando seu próprio programa de enriquecimento, o Brasil não pode deixar de apoiar o Irã”, declarou.

Relações econômicas

Por último, o Brasil vê no Irã um amplo mercado com mais de 70 milhões de potenciais consumidores. “O governo brasileiro busca ampliar o comércio com o Irã desde os anos 1990, quando substituiu a Argentina como principal parceiro de Teerã na América Latina”, contou Farideh.

Há um mês, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior do Brasil, Miguel Jorge, visitou o Irã com 80 empresários para fechar várias negociações. Além disso, o ministro discutiu o estabelecimento de uma linha de crédito entre os dois países para financiar exportações brasileiras ao mercado iraniano. É possível que Lula assine um acordo nesse sentido durante sua visita ao país.

“O País vende cerca de US$ 1,3 bilhão ao Irã anualmente, e dificilmente compra alguma coisa. E isso é ótimo para o equilíbrio comercial brasileiro”, disse Hakim. “O Brasil valoriza a relação comercial com o Irã mais do que o país persa”, afirmou.

Segundo o presidente do Inter-American, o que importa para o Irã em relação ao Brasil é a possibilidade de sair do isolamento, num momento em que está sob pressão da comunidade internacional e sofrendo ameaças de novas sanções por causa de seu programa atômico. "O Brasil é uma boa marca internacional e é visto favoravelmente em quase todos os lugares", disse Hakim.

Além disso, lembra o especialista, o Brasil desde o início do ano é membro rotativo do Conselho de Segurança da ONU , onde os EUA esperam aprovar a quarta rodada de sanções contra Teerã. E, para sorte do Irã, o Brasil dá indicações de que pode votar contra a medida. "Teerã tem poucos amigos da estatura e influência do Brasil", completou.

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