Vão de Almas, símbolo da dívida histórica do Brasil com seus escravos

Ao raiar do dia, Zé de Marisa parte com suas mulas para anunciar a morte do velho Justino, em Vão de Almas, uma das remotas aldeias criadas há séculos no Brasil por escravos fugitivos; e que aguarda as promessas de construção de uma estrada que a conecte ao século 21, feitas pelo presidente Luiz Inacio Lula da Silva.

AFP |

"O velho Justino morreu hoje. Ouviram? Avisem as pessoas, grita Zé, no cume de uma colina, numa chácara distante, do outro lado do caudaloso rio Paranã.

São seis horas até a cidadezinha mais próxima, onde poderá pegar um telefone para informar os parentes que deixaram o local.

Como a maioria das comunidades de descendentes de escravos, as 400 famílias que moram na aldeia pagam caro por seu isolamento histório: não há estrada, água, luz, telefone ou médico; a única presença aparente do Estado são pequenas escolas com permanente déficit de professores.

Vão de Almas é a mais isolada das comunidades Kalunga, um território de 2..530 km2 de serra e rios, a 400 km ao norte da capital brasileira.

A histórica fuga de seus fundadores e seu isolamento geraram uma cultura de heranças africanas e indígenas que, em parte, vão se perdendo.

O falecido dom Justino, que faria 100 anos, é velado por toda a comunidade à luz de vela... Ele era o rezador de cerimônias e casamentos e curava com unguentos. Morreu sem deixar sucessor.

Elva Valera da Conceição, uma anciã magra de 70 anos, que cria 12 netos, é a parteira da comunidade.

"Como aprendi? Mistério de Deus. Meu pai me ensinou as orações", explica à AFP junto a jovens que descascam arroz e moem a farinha em grandes moendas.

O caminho através do território Kalunga, em burro e a pé pela serra escarpada, é passo obrigatório quando se precisa de alguma coisa ou se quer vender seus produtos. Não são muitas as vezes que um todo-terreno oficial se aventura pela serra.

Dom Justino decidiu que não queria fazer a penosa viagem até o hospital.

"Ser Kaluna é sofrimento", explica dona Natalina, que criou sozinha os oitos filhos e recorda com horror quando teve que cruzar as montanhas escapadas a pé, com o filho de 14 anos nas costas, para evitar que morresse de pneumonia,

As casas espalhadas pela serra são de adobe, com telhado de palha; a comida é feita em fogão a lenha, muitas vezes no chão e a fonte da vida são os rios.

O Estado nos deve, durante muitos anos nada recebemos. Não queremos ir para a cidade, passar fome, lutamos por uma estrada e educação", lamenta Zé, que foi eleito representante da comunidade no município, para aonde vai uma vez por mês.

"É indigno como tratam os Kalungas, como se não fossem gente. O Estado não oferece nenhuma condição. Tive que construir minha casa de barro e comprar burros para me instalar", desabafa a professora Sandra Ferreira da Silva.

Lula prometeu casas, eletricidade, educação, saneamento básico, no início de seu governo.

Líder da desigualdade social, nos últimos 20 anos, o Brasil acelerou o reconhecimento de territórios indígenas e uma reforma agrária para dar terra aos que nada têm.

Os descendentes de africanos foram os últimos da lista, beneficiados com o decreto do presidente Lula que, logo ao chegar ao poder, reconheceu a propriedade coletiva desses territórios fundados por escravos e considerados entidades históricas e culturais.

Só que as promessas de Lula chegam a conta-gotas, podendo, inclusive, ser revertidas com uma ação de inconstitucionalidade na Supremo Tribunal Federal.

"Essas pessoas não existiam para o Estado brasileiro antes desse reconhecimento. A maioria desses quimbolas foram encontrados em situação semelhante à vivida no século XVIII; muitos nem conheciam dinheiro", denuncia Zulu Araújo, presidente da Fundação Palmares que tutela essas aldeias das quais, calcula, existam 3.500 em todo o Brasil, com três milhões de pessoas.

O Brasil, que trouxe milhões de escravos da África, foi um dos últimos países a abolir a escravidão, em 1888. Hoje, a metade de sua população, de 190 milhões de pessoas, possui descendência africana, mas a desigualdade persiste: o salário médio da população negra corresponde à metade do recebido pelos brancos e sua presença no ensino superior não chega a 3%.

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