Eduardo Davis. Brasília, 23 set (EFE).- A presença do presidente hondurenho deposto Manuel Zelaya na embaixada do Brasil em Tegucigalpa gerou polêmica na esfera política brasileira e até dúvidas sobre uma suposta ingerência do país em assuntos internos de outra nação.

Na opinião de analistas, a inesperada chegada de Zelaya na segunda-feira passada no território brasileiro em Honduras causou um conflito inédito e difícil de resolver, pois não há uma situação técnica de asilo nem de refúgio e a embaixada ficou no centro de uma crise interna.

"Não há dúvidas de que o Brasil devia dar asilo político a Zelaya, já que ele foi vítima de um ato de força, mas seu retorno gera um quadro diferente ", declarou o ex-chanceler Luis Felipe Lampreia (1995-2001).

Surpreendido pela atitude de Zelaya, o Governo brasileiro diz que não colaborou com o retorno do presidente deposto. Apesar disso, diversos dirigentes políticos consideram que Zelaya transformou a embaixada brasileira em um forte, a partir de onde discursa aos seguidores, contrariando as normas de asilo e diplomáticas.

De forma quase unânime, os partidos políticos brasileiros defendem a soberania nacional representada pela sede diplomática, mas alguns setores têm dúvidas sobre o papel do Governo de Luiz Inácio Lula da Silva na crise.

Para o senador José Agripino Maia (DEM) o Brasil entrou no meio de uma confusão desnecessária. Ele questiona se Lula não aceitou entrar no jogo para ficar bem com Hugo Chávez, líder venezuelano que, aparentemente, cedeu o avião para o retorno do presidente deposto ao país.

Líderes do PPS querem saber como Zelaya chegou até a embaixada e também mais informações sobre a sua permanência no local, pois como não se trata de um asilo, parece haver uma participação da diplomacia brasileira em uma ação clandestina e uma clara ingerência em assuntos internos de outro país.

Na opinião do deputado Raul Jungmann (PPS), a embaixada brasileira se transformou em tribuna eleitoral e o chanceler Celso Amorim deve ser responsabilizado por isso.

Já o senador Arthur Virgílio (PSDB) afirmou que se o Governo combinou tudo isto, se trata de um absurdo diplomático imperdoável.

"O Brasil perdeu a possibilidade de ser um interlocutor nesta crise, porque agora está diretamente implicado na campanha para restabelecer o mandato do presidente Zelaya".

Em defesa do Governo, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB) disse que "Zelaya é um símbolo da resistência para evitar a volta dos tempos em que os líderes eram derrubados".

Ele ainda desqualificou as críticas ao assessor para Assuntos Internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia, justificando que o Brasil só cumpriu com sua obrigação humanitária e diplomática.

"Quem acredita que o Brasil interferiu deve simpatizar com os golpistas e estar estimulado por um afã opositor injustificável", definiu Garcia.

A posição do Governo foi reforçada nesta quarta-feira por Lula durante a Assembleia Geral da ONU, em Nova York. O presidente pediu imediato retorno de Zelaya ao poder e atenção da comunidade internacional à inviolabilidade da embaixada brasileira em Honduras.

EFE ed/dm

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