As autoridades eleitorais uruguaias confirmaram nesta segunda-feira que o candidato da oposição à Presidência do país, o ex-presidente Luis Alberto Lacalle (1990-1995), do Partido Nacional (Blanco), enfrentará José Pepe Mujica, da coalizão governista Frente Ampla, em um segundo turno em 29 de novembro. A Corte Eleitoral do Uruguai disse que Mujica obteve 48,13% dos votos válidos e Lacalle, 28,96% no pleito realizado neste domingo.

Para Mujica vencer no primeiro turno, teria de ter superado os 50% dos votos.

O ex-presidente recebeu apoio declarado do terceiro candidato nesta disputa, Pedro Bordaberry, do Partido Colorado, que terminou com 16,93% dos votos.

"É claro que este apoio de Bordaberry é fundamental", disse Lacalle - ressaltando, porém, que não considera que o respaldo do ex-adversário lhe garanta a vitória.

"As contas não são feitas assim. O eleitor é livre para votar em quem entender que é melhor e apresentar a proposta que mais lhe agrada."
'Modelo de país'
Quando foram divulgados, no fim da noite do domingo, os dados de boca de urna provocaram a comemoração de seguidores das três forças políticas - Frente Ampla, Blanco e Colorado, na orla de Montevidéu.

Analistas entrevistados pelas emissoras de televisão local indicaram que o segundo turno promete ser uma disputa acirrada.

Lacalle disse que falou com Bordaberry por telefone, mas sinalizou que não pretendia conversar com Mujica. "Vamos nos ver no campo", disse, sugerindo falar das urnas. Mas ressalvou que se for eleitor "estenderá a mão" para os demais políticos.

Ex-guerrilheiro na ditadura (1973-1985) e ex-ministro da Agricultura do atual governo do presidente Tabaré Vázquez, Mujica disse, em seu discurso, que os uruguaios votarão, no segundo turno, por dois modelos de país.

"Mas nossa campanha não será mais só com as cores da bandeira da Frente Ampla. Agora, acima de tudo, está o destino do Uruguai", afirmou, coberto com uma bandeira nacional. Ele afirmou que o objetivo é "o país" e "não um partido ou força política".

"Essa não é uma luta de super-heróis. É uma disputa eleitoral para o bem do país. Os próximos trinta dias devem ser de entrega, lutaremos e seguiremos lutando", discursou.

Mujica pediu aos seus seguidores, que lotaram as ruas, que "comecem a militar já" em busca dos votos que faltaram para a vitória no primeiro turno.

Em recente entrevista à BBC Brasil, o candidato da esquerda afirmou que jamais imaginou ser candidato à presidente e que se não fosse eleito desistiria da política eleitoral.

"Volto pra minha chácara, vou dirigir o meu trator e construir uma escola rural para crianças", disse. Naquela ocasião, poucos dias antes do pleito, ele destacou ainda que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é "o modelo" que pretende seguir, por ter decidido, em sua opinião, pelo caminho da "negociação" e da "conciliação".

Seu candidato a vice-presidente, o ex-ministro da Economia, Danilo Astori, disse que o segundo turno "será um plebiscito" entre duas formas de governar e propostas diferentes.

"Será um plebiscito entre a gestão dos partidos tradicionais e do governo da Frente Ampla, que distribuiu riqueza. E acho que só a esquerda, que é a Frente Ampla, tem um rumo claro para desenvolver o país e atender às políticas sociais", afirmou.

A Frente Ampla chegou à presidência, pela primeira vez, no dia primeiro de março de 2005, após a eleição de 2004.

Aquele pleito terminou com a alternância dos Partidos Blanco e Colorado no poder, após quase dois séculos.

Tabaré tinha apoiado a candidatura de Astori, que perdeu para Mujica na interna da coalizão governista.

Anistia
Também neste domingo, os uruguaios participaram de um plebiscito sobre a Lei de Anistia ("caducidad").

A lei beneficiou militares e policiais acusados de crimes na ditadura militar no país (1973-1985).

Com a apuração concluída, 47,36% dos votos foram em favor da anulação da lei.

Como a moção não atingiu os 50% necessários, a lei foi mantida.

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