Uruguai caminha para Governo formado por ex-guerrilheiros e tecnocratas

Montevidéu, 29 dez (EFE).- A transição de Governo no Uruguai começou hoje formalmente com um ato que serviu de apresentação para os futuros ministros do presidente eleito, José Mujica, em cujo Gabinete se destacam ex-guerrilheiros tupamaros e social-democratas de perfil técnico.

EFE |

Em um ato com a presença do Gabinete atual e do que Mujica dirigirá, o presidente em fim de mandato, Tabaré Vázquez, entregou oficialmente os relatórios preparados por seus ministros para agilizar os trabalhos de transição.

Deste modo, Vázquez deu início a um período de trabalho conjunto entre os dois Governos que se prolongará até a posse oficial do presidente eleito, marcada para o dia 1º de março de 2010.

Durante a breve cerimônia, Vázquez disse que a ideia é oferecer aos seus sucessores uma transição "profunda, transparente e generosa", que lhes ofereça "elementos substanciais para trabalhar plenamente desde o início da gestão".

"Estaríamos fazendo isto qualquer que fosse o resultado eleitoral, como serviço à cidadania, porque acreditamos em incentivar a transição generosa, porque dá seriedade e responsabilidade ao país", afirmou.

Vázquez, que em 2005 se tornou o primeiro presidente de esquerda em um país dominado historicamente pelo Partido Colorado, de centro-direita, é da mesma legenda que Mujica, a Frente Ampla.

Por sua vez, o futuro presidente do Uruguai destacou o desenvolvimento da transição como um exemplo "de racionalidade na arte de administrar os recursos da nação".

O ato serviu também para confirmar a relação de ministros do próximo governante, antecipada pela imprensa e pela Frente Ampla. O novo Executivo uruguaio será composto por representantes de todos os setores desta heterogênea coalizão de partidos.

Destaca-se a nomeação de Eduardo Bonomi como ministro do Interior, cargo a partir do qual chegará posteriormente à titularidade do futuro Ministério da Presidência, que ainda não foi criado, o que transformará este veterano político no "homem forte" de Mujica.

Bonomi, que já foi ministro do Trabalho com Vázquez, compartilha com Mujica sua antiga militância na guerrilha tupamara na década de 70, que custou ao futuro presidente 13 anos de prisão antes e durante a ditadura militar (1973-1985) sob a acusação de assaltos, roubos e atentados.

O passado do próximo ministro do Interior como guerrilheiro, que também o levou para atrás das grades, causou mal-estar entre os opositores.

O senador Luis Heber, do conservador Partido Nacional, a segunda força política do país, chegou a acusá-lo de ter assassinado um policial pelas costas durante a ditadura, acusação que não foi provada.

Outra nomeação polêmica é a de Luis Rosadilla à frente do Ministério da Defesa. Padeiro de profissão, também foi militante tupamaro e passou nove anos ba prisão e fechado em quartéis militares antes da restituição da democracia.

Outro ex-guerrilheiro, o atual intendente (prefeito) de Montevidéu, Ricardo Ehrlich, ocupará o ministério da Educação e Cultura.

Ehrlich também foi detido por sua militância tupamara e foi para o exílio na França. Ele se dedicou ao ensino e à pesquisa no campo da bioquímica, trabalho pelo qual é reconhecido internacionalmente.

A pasta de Relações Exteriores ficará com Luis Almagro, diplomata de carreira e atual embaixador do Uruguai na China.

A gestão econômica, na qual o vice-presidente Danilo Astori terá um destacado trabalho, ficará nas mãos de diversos especialistas de perfil técnico e representantes dos setores mais moderados da Frente Ampla.

À frente da pasta de Economia estará Fernando Lorenzo, homem de confiança de Astori procedente do Novo Espaço (corrente democrata cristã); a de Indústria ficará com Roberto Kreimerman, engenheiro químico com experiência nos setores público e privado; a de Saúde, com o economista Daniel Olesker, também socialista.

O ministro de Turismo e Esportes será Héctor Lescano, o único dos do atual Governo que manterá o cargo, e o de Trabalho e Seguridade Social será Eduardo Brenta.

Completam o Gabinete o social-democrata Enrique Pintado no Ministério de Transporte e Obras Públicas, o independente Luis Aguerre no de Pecuária, Agricultura e Pesca, e a comunista Ana Olivera no de Desenvolvimento Social. EFE amr/bba

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