Rio de Janeiro, 24 nov (EFE) - O diretor do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) para a América Latina e o Caribe, Nils Kastberg, denunciou hoje que os abusos sexuais a menores na região estão arraigados no silêncio que impõem a cultura e a religião. Na América Latina e no Caribe, temos dois milhões de casos de abusos ao ano, o que ocorre principalmente no entorno da família. Está muito claro que houve muito silêncio e inclusive, às vezes, aceitação, afirmou Kastberg, em entrevista à Agência Efe. Ele está no Brasil para participar do 3º Congresso Mundial de Enfrentamento da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, que começará amanhã no Rio de Janeiro. Kastberg deu o exemplo de algumas empregadas domésticas no Paraguai e em Porto Rico, que são estupradas pelos filhos dos patrões, que se aproveitam de sua relação de poder e da cumplicidade com os pais, que preferem que violentem a criada em vez de uma prostituta. Ele assegurou que existe uma resistência generalizada a ensinar às crianças e que é preferível tapar os abusos a contar a verdade, o que, em sua opinião, pode constituir um grande mecanismo de prevenção. O responsável do Unicef disse que é preciso dar ênfase na escola, onde os sinais dos abusos podem ser vistos cedo, como fazem no Peru as Defensorias, que são grupos de duas ou três professoras que apóiam as vítimas de abuso em cerca de 2.500 escolas.

O diretor do Unicef destacou que, nos cinco anos que está no cargo, em vários países começou a surgir "um sentimento" de que estes atos não são aceitáveis, mas manifestou que ainda existem muitos "vazios legais", como falta de proteção às vítimas, o que acaba levando menores à prostituição.

"Para muitas meninas, dedicar-se à prostituição é uma bênção, em comparação ao nível de violência que encontravam no lar, onde eram violentadas todas as noites e sem proteção", afirmou.

Segundo ele, é "muito difícil" que uma menina se prostitua sem antes ter sofrido abusos em casa.

Por isso, é preciso combater este tipo de violência doméstica com políticas "integrais" que "eliminem a impunidade" e apóiem a vítima, pois muitas mulheres não denunciam seus estupradores por medo de perder o sustento econômico.

Para Kastberg, também deve-se assinalar a "gigantesca responsabilidade" dos países europeus, responsáveis por 25% do tráfico de crianças e adolescentes, e que na América Latina fomentam a prostituição, por serem grandes emissores de turistas sexuais.

No caso da pornografia infantil, destacou que só três países da região, Canadá, Paraguai e Chile, têm leis contra a posse de material, o que qualificou de um "vazio monumental".

"Os usuários deveriam saber que, ao baixar uma foto na internet, estão contribuindo para aceitar a prostituição infantil", acrescentou.

O grande crescimento da pornografia na rede será uma das grandes novidades no congresso, já que é um fenômeno que não existia quando ocorreram as duas primeiras edições, em 1996 em Estocolmo, Suécia, e em 2001 em Yokohama, no Japão. EFE mp/db

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