Mar Marín. Buenos Aires, 14 dez (EFE).- Os líderes dos países que compõem a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) se reunirão por ocasião da 36ª Cúpula do Mercosul, amanhã e terça-feira, na Costa do Sauípe, na Bahia, para oficializar a designação de um secretário-geral, avançar no projeto do Conselho Sul-Americano de Defesa e aplacar críticas.

Impulsionada pelo Brasil, a Unasul, criada em maio último, tenta se consolidar como ator político na região e um instrumento capaz de representar os interesses dos 12 Estados-membros. Pretende também contribuir para resolver conflitos internos pendentes.

O papel da Unasul foi relevante na crise institucional da Bolívia, com a criação de uma "Comissão da Verdade" que recentemente concluiu que as autoridades da região do departamento (estado) de Pando são "responsáveis" pelo massacre perpetrado em setembro, no qual morreram 20 camponeses - em sua maioria simpatizantes do Governo do presidente Evo Morales - e outros 70 ficaram feridos.

Mas os países que integram a Unasul não conseguiram, até agora, se colocar de acordo em uma questão básica como a designação do secretário-geral da entidade.

Inúmeras críticas têm sido feitas no interior do próprio bloco, como as do presidente do Equador, Rafael Correa, que na última edição da Cúpula Ibero-Americana, em El Salvador, afirmou que a Unasul é "um erro estratégico", um organismo inoperante e "extremamente burocratizado".

As palavras do líder equatoriano foram um duro ataque para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que apostou no fortalecimento da Unasul como instrumento de integração e plataforma para que a região pudesse ser ouvida, em um contexto de crise global que começa a repercutir nas economias emergentes de Brasil e Argentina.

Herdeira da Comunidade Sul-Americana de Nações (CSN), criada em Cuzco (Peru) em dezembro de 2004, a Unasul é integrada por Brasil, Argentina, Bolívia, Colômbia, Chile, Equador, Guiana, Peru, Paraguai, Suriname, Uruguai e Venezuela.

O primeiro secretário-geral da Unasul, o ex-presidente equatoriano Rodrigo Borja, renunciou em 22 de maio último, um dia antes da constituição oficial do órgão, por "profundas divergências" com a maioria dos chefes de Estado dos países-membros.

As esperanças estão postas agora na 36ª Cúpula do Mercosul, evento que poderia se transformar em uma oportunidade para se avançar na escolha do secretário-geral, na formação do Conselho Sul-Americano de Defesa e no projeto do Banco do Sul.

Além disso, a reunião pode facilitar a busca por soluções dialogadas aos conflitos internos que entorpecem o funcionamento da Unasul.

Um desses conflitos, o enfrentamento entre Argentina e Uruguai pela instalação de uma fábrica de celulose na localidade uruguaia de Fray Bentos, bloqueou, pelo menos por enquanto, as aspirações do ex-presidente da Argentina Néstor Kirchner de ocupar a Secretaria-Geral da Unasul, mesmo depois de ter seu nome aprovado pelo equatoriano Correa.

O Uruguai passou fatura a Kirchner por este permitir o corte da ponte fronteiriça de Gualeguaychú durante os dois últimos anos e vetou sua candidatura.

A decisão do Governo de Tabaré Vázquez provocou uma forte reação de Buenos Aires, que considerou a postura uruguaia "um agravo para os argentinos, para a Unasul e para os países que apoiaram a candidatura de Kirchner".

O Paraguai e o Brasil se mantiveram à margem da polêmica, enquanto Morales saiu em defesa de Kirchner e pediu a Vázquez uma reflexão.

Além disso, a tensão entre Brasil e Equador cresceu nas últimas semanas pela decisão de Correa de questionar a um tribunal internacional uma dívida com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Em resposta, Lula chamou seu embaixador em Quito para consultas e expressou seu "mal-estar" a Correa.

As divergências entre os dois países tinham começado antes, quando Correa expulsou a Odebrecht de seu território por problemas em uma hidrelétrica construída pela empresa e Lula suspendeu a discussão de projetos de infra-estrutura com Quito.

Outros dois membros da Unasul, Equador e Colômbia, mantêm tensas relações desde o incidente fronteiriço de março último, que levou à morte do chefe guerrilheiro das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) Raúl Reyes.

Paralelamente, o ex-bispo Fernando Lugo, presidente do Paraguai, pressiona o Brasil para que aumente o pagamento pela eletricidade que recebe da hidrelétrica de Itaipu. EFE mar/fr/mh

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