Mar Marín. Campana (Argentina), 4 mai (EFE).

Mar Marín. Campana (Argentina), 4 mai (EFE).- A cúpula extraordinária da União de Nações Sul-americanas (Unasul) terminou hoje com uma ameaça de boicote dos países sul-americanos à Cúpula União Europeia (UE) - América Latina, se o bloco europeu mantiver o convite feito ao presidente hondurenho, Porfirio Lobo, para a reunião em maio. Após um longo debate sobre a situação em Honduras, que tomou boa parte da cúpula de hoje, o presidente do Equador, Rafael Correa, anunciou que transmitirá ao presidente do Governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, o "mal-estar" da maioria dos membros da Unasul por causa do convite feito a Lobo. "Com a participação do Governo de Honduras, não poderíamos assistir à cúpula, já que não o consideramos um Governo legítimo", afirmou Correa, em entrevista coletiva no final da reunião de presidentes da Unasul. O convite ao conservador Lobo à cúpula, que será realizada em Madri nos dias 17 e 18 de maio, "criou muito mal-estar na região e me pediram, em minha condição de presidente pro tempore (da Unasul), para conversar com nosso amigo José Luis Rodríguez Zapatero". "Foi cometida uma leviandade ao convidá-lo sem consultar os Governos da região", já que, segundo Correa, "não se pode minimizar a ruptura institucional de Honduras". "Todos queremos ir, mas vamos ser firmes", advertiu o presidente equatoriano, que evitou mencionar os países que poderiam somar-se ao "boicote" à reunião de Madri caso seja confirmada a presença de Lobo. Somente Colômbia e Peru reconheceram a vitória de Lobo nas eleições organizadas em novembro pelo Governo de fato de Roberto Micheletti, após a deposição, em junho, do então presidente Manuel Zelaya. "Reconhecemos o Governo de Honduras, porque acreditamos que dada a nossa velha tradição de golpes de Estado, o fato de que um golpista proceda a eleições e daí surja um Governo democrático permitiu a muitos de nossos países sair das ditaduras", declarou à Agência Efe o chanceler peruano, José Antonio Belaúnde. A decisão da Unasul é um balde de água fria para o Governo de Zapatero, que pretendia exibir a reunião de maio como uma conquista antes de concluir seu semestre como presidente de turno da UE. Lobo já confirmou sua presença na cúpula de Madri e o embaixador espanhol em Tegucigalpa, Ignacio Rupérez, disse hoje que as relações entre Espanha e Honduras estão "perfeitamente normais, positivas e progressivas". A dúvida agora é quantos líderes sul-americanos se somariam ao "boicote" anunciado por Correa. Fontes diplomáticas dão como certo que o presidente colombiano, Álvaro Uribe, e o peruano, Alan García, - as duas grandes ausências da cúpula da Unasul - irão a Madri, e que o venezuelano Hugo Chávez e o equatoriano Rafael Correa não irão, salvo se for encontrada alguma saída que possa satisfazer todas as partes. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva propôs pedir a Honduras que permita o retorno de Zelaya com plenos direitos civis. A polêmica sobre Honduras ofuscou o outro tema estrela da cúpula, a eleição, por unanimidade, do ex-presidente da Argentina Néstor Kirchner como primeiro secretário-geral da Unasul. Sua designação pode ser considerada uma vitória da diplomacia argentina, que pressionou nos últimos meses seus vizinhos a elegerem Kirchner para o mais alto cargo da Unasul. Kirchner, de 60 anos, tentou ocupar o cargo no ano passado, em meio a um grave conflito político com o Uruguai gerado pela instalação de uma fábrica de celulose às margens do Rio Uruguai, na fronteira entre os dois países, que enfrentou o veto do então presidente uruguaio, Tabaré Vázquez, apoiado por Colômbia e Peru. A vitória de José Mujica nas últimas eleições uruguaias abriu o caminho para que Kirchner alcançasse seus objetivos. Em seu novo papel de líder da Unasul, Kirchner terá que unir-se ao jogo diplomático e esquecer velhas práticas de sua gestão presidencial, como sua aversão a cúpulas de alto nível e a viagens internacionais. Além disso, se quiser se adequar aos estatutos da Unasul, deverá dedicar-se ao cargo em tempo integral, deixar sua vaga de deputado e estudar como compatibilizar sua nova atividade com a liderança do Partido Justicialista (PJ, peronista). A agenda da cúpula de hoje também incluiu uma resolução de rejeição contra a lei migratória aprovada no estado americano do Arizona, que "criminaliza" os imigrantes e fomenta o racismo, e uma declaração de apoio às medidas do Governo do Paraguai para conter a onda de violência atribuída ao chamado Exército do Povo Paraguaio (EPP). EFE mar/pd

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