Um mês após tragédia, chuvas expõem fragilidades do Haiti

Gotson Pierre. Porto Príncipe, 11 fev (EFE).- Um mês após o devastador terremoto, a queda de chuvas isoladas em Porto Príncipe deixou clara a necessidade de erguer refúgios seguros para cerca de um milhão de pessoas que ainda vivem nas ruas da capital haitiana.

EFE |

A chuva caiu de madrugada e chegou a gerar cenas de pânico em regiões como Petion Ville, Champ de Mars e outros pontos, com gente correndo em todas as direções na busca de um teto sobre o qual se refugiar.

Foi como uma antecipação do que ocorrerá dentro de alguns meses, quando as chuvas se tornarão frequentes, caso não se consiga abrigar a população, que segue vivendo em tendas improvisadas.

"No próximo mês só falaremos de chuva. Precisamos que os haitianos tenham refúgios que realmente protejam contra a chuva.

Estão aumentando consideravelmente as infecções respiratórias", assinalou em Genebra Lizzi Babister, conselheira da organização Care International no Haiti.

Os haitianos que hoje foram surpreendidos pelas chuvas se queixaram da falta de solução para o problema durante um protesto que surgiu de forma espontânea.

"É o Estado que deve zelar por nós", disseram algumas das pessoas que participavam do protesto, enquanto outras asseguravam não ter "nada, nem sequer um plástico para pôr no chão".

Perante essa situação, a ONU e o Governo haitiano pediram o envio de tendas de campanha ao país, onde se estima que haja apenas cerca dez mil, segundo uma fonte do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

Um funcionário do Governo disse hoje que a comunidade internacional prometeu 50 mil tendas.

No entanto, a Comissão Europeia (órgão executivo da UE) considera que "a estratégia mais apropriada" para enfrentar a situação consiste em dispor de chapas metálicas para construir refúgios urgentes.

Para o bloco europeu, não é necessário o envio de mais tendas de campanha e é preciso dar prioridade à coberturas metálicas, mais resistentes.

A UE anunciou, além disso, que prepara o envio de uma missão militar ao Haiti para construir refúgios para a população.

Como representante da oposição política, a secretária-geral da União dos Democratas Nacional Progressistas (RDNP), Mirlande Manigat, advertiu que a cólera e a frustração podem provocar uma "explosão social", em relação com a situação do povo nas ruas.

"Cada vez que passo perto de uma tenda tenho vergonha de ver haitianos como eu vivendo nessa situação", disse a dirigente, que pediu a realização de funerais dignos para as vítimas e se mostrou incomodada com a presença de tropas estrangeiras para distribuir ajuda humanitária.

Junto aos refúgios e à segurança - que é outra das preocupações das autoridades - a distribuição de alimentos segue concentrando a atenção após a tragédia, que já custou a vida de 217 mil pessoas, sem contar os milhares de mortos que ainda estão sob os escombros.

Um funcionário do Governo disse que desde 31 de janeiro foram distribuídas 5.200 toneladas de comida para 1,2 milhão de pessoas e antecipou que o ministro da Agricultura do Haiti, Joanas Gue, apresentará amanhã um programa de produção de alimentos em Roma, onde se reunirá com representantes do Programa Alimentício Mundial (PMA) e da ONU.

Além disso, o Governo estuda a possibilidade de distribuir comida nas proximidades de escolas que foram destruídas, para facilitar o acesso de um maior número de pessoas aos alimentos.

No entanto, o PMA indicou que, embora a distribuição de alimentos tenha melhorado, muitos desabrigados não receberam ajuda.

Até o momento, o PMA distribuiu comida para 1,6 milhão de vítimas do terremoto e espera ajudar a outro milhão nos próximos dez dias.

Enquanto isso, o Governo anunciou uma série de atos para lembrar amanhã o primeiro mês da tragédia, com um dia de luto nacional que se insere no mês de luto, declarado até 17 de fevereiro.

O ministro do Interior do Haiti, Paul Antoine Bien-Aime, disse que haverá cerimônias na capital e em outros pontos e convidou a população a se vestir de preto e branco na data, que incluirá também atividades socioculturais. EFE gp/rr

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