O Maio de 1968 na França é conhecido como símbolo de uma revolta juvenil que teve cenários e protagonistas de peso na Europa - da Alemanha à então Tchecoslováquia, passando pela Itália e Polônia.

Alemanha --

O movimento de 1968 dinamita na Alemanha a solidariedade imposta pelo pós-guerra para reconstruir o país e o obriga a assumir um papel de responsabilidade perante o passado nazista, negado nos anos 50.

A contestação que nasce desde meados dos anos 60, propaga-se em junho de 1967 quando a polícia mata acidentalmente um estudante, Benno Ohnesorg, em Berlim Ocidental durante manifestação contra o Xá do Irã.

O movimento explode quando o líder radical Rudi Dutschke sofre uma tentativa de assassinato em 11 de abril de 1968.

Os estudantes impregnados pelas teorias revolucionarias da "Escola de Frankfurt" recebem o apoio de intelectuais progressistas como os escritores Heinrich Böll, Günter Grass e de grandes jornais como Der Spiegel e Die Zeit.

Segundo o historiador Jürgen Kocka, 1968 "engendra a emergência de novos movimentos sociais: pacifismo, ecologia, correntes alternativas, feminismo..."

Em 1969, o SPD de Willy Brandt ganha as eleições legislativas e os anos 70 serão de liberalização moral, mas também de violência, com a Facção do Exército Vermelho (RAF).

Itália --

Na Itália, o movimento estudantil de 1968, chamado de "maggio rampante" devido à sua duração, conseguiu uma conjunção com o mundo operário, ao contrário de outros países, antes de caminhar para a fase negra dos "anos de chumbo" e o terrorismo.

A revolta nas universidades durou muito tempo, entre os primeiros indícios em 1966, até o apogeu em 1968 e a prolongação até o outono de 1969.

Diferentemente da França, o mundo sindical e o Partido Comunista Italiano (PCI) se mostraram abertos aos estudantes, cujos dirigentes foram recebidos pelo secretário do PCI, Luigi Longo, em abril de 68.

Nessa época de guerra fria, a alternância é impossível e isso explica também o êxito da onda contestatória que se apodera do país e faz evoluir uma sociedade amparada pela Igreja Católica.

"Sem os acontecimentos de 1968, não existiria o divórcio (1970) nem o aborto (1978)", assegurou à AFP o cientista político Giorgio Galli.

Depois de 1968 abre-se a página negra dos "anos de chumbo" e o terrorismo (de 1969 até o fim dos anos 80), mas o vínculo entre ambos os períodos é tema de discórdia entre especialistas.

Tchecoslováquia --

Em janeiro de 1968, em Praga, Alexandre Dubcek, logo depois de nomeado líder do Partido Comunista Tchecoslovaco, tentou colocar em prática seu "socialismo com rosto humano" - uma alternativa que o Kremlin não aceitou e reprimiu a força em agosto desse mesmo ano.

Levantada a censura, um grande debate domina as classes sociais sobre as crueldades stalinistas depois do golpe comunista de 1948 em Praga. Dubcek põe em prática reformas econômicas e políticas para que sejam ratificadas pelo partido em setembro de 1968 em congresso extraordinário.

Na noite de 20 a 21 de agosto, a efêmera esperança de democracia desaparece, esmagada pelos tanques soviéticos.

Dubcek, destituído, abre caminho para o pró-brejneviano Gustav Husak.

Polônia --

A Polônia viveu no começo de 1968 uma das primeiras revoltas estudantis desse ano na Europa. Severamente reprimidas, foram exploradas para lançar uma campanha anti-semita de grande envergadura.

Tudo começou com a peça de teatro "Os antepassados", numa tradução livre, do poeta romântico polonês do século XIX Adam Mickiewicz, que as autoridades consideravam contra a Rússia.

Sua proibição pela censura provocou uma manifestação espontânea por parte dos estudantes em frente ao monumento do poeta em Varsóvia. Seus líderes foram expulsos da universidade e em 8 de março começou um ciclo de manifestações e repressão que se estendeu a outros centros e cidades.

Com a ajuda da polícia política e dos radicais do partido, o chefe do PC polonês, Wladyslaw Gomulka, deu início à caça ao "judeu comunista". Aproximadamente 20 mil pessoas abandonaram o país e 13.500 delas perderam a nacionalidade entre 1968 e 1970, segundo documentos dos arquivos.

Em março passado, o ministro do Interior polonês, Grzegorz Schetyna, passou a expedir certificados de nacionalidade polonesa às pessoas que o pediram em 1968.

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