Um lorde no noticiário policial

A vida vai ficando cada vez mais difícil em Londres. É o que me dizem alguns habitantes desta cidade algo desiludidos.

BBC Brasil |

Preparam-se para dar o famoso salto duplo mortal britânico: ir morar no estrangeiro.

O estrangeiro é muito mais estrangeiro - e estranho - para um cidadão britânico do que para o resto do mundo. Coisa de ilhéu, li em algum lugar. Ilhéu é uma raça diferente. Cheia de nove horas. E noves fora, nada.

Penso em Ilhéus, na Bahia. Não fiquei lá mais que três dias. Para onde eu olhava, lá estava um ilhéu. Simpático, fraternal, hospitaleiro. Todos dispostos a cantarolar, debaixo dos coqueiros, velhos sambas de Dorival Caymmi e as mais recentes de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Eram ilhéus e nada tinham de diferente, no sentido de nove horas, ou qualquer empombação.

Já os ingleses, além de sofrerem de uma grande ausência de palmeiras, coqueiros, compositores e cantores populares (peguem, se tem coragem, o Elvis Costello. Pode ser pior, mais chato? Destituído de talento?), ganharam merecidamente a fama de ilhéus e, por isso mesmo, sempre à beira de uma bizarria. Principalmente nesta época do ano, o verão, que, em inglês, convencionou chamarem, justamente, de silly season, ou seja, estação de bobeiras.

A polícia, por exemplo. Qualquer parágrafo começando com essas quatro palavras, em qualquer idioma, é para se tomar o maior cuidado possível. Nesta época e nestas ilhas, nestes dias, nada mais verdadeiro. Volta e meia está a polícia no noticiário. Policial, evidente. Pelas razões mais erradas possíveis.

Ainda agora, na semana que passou, Lorde Carlile, watchdog (é, isso mesmo, cão de guarda) das leis dedicadas ao terrorismo, acusou a polícia de estar parando na rua, para uma revista geral, gente branca, só para manter um equilíbrio nas estatísticas.

Nosso bom Lorde Au-Au (que me perdoe a falta de respeito, mas eu não sou ilhéu) aprofundou sua ponderação adiantando que pessoas sem o menor motivo para serem revistadas passaram a ser mera estatística para demonstrar que, entre os supostos defensores da lei, não há qualquer preconceito. Pessoas, disse ele, em alto e razoável som, brancas. Brancos, por assim dizer - e por que não assim dizer?
Os brancos, pois, estão sendo discriminados. Viraram fiel na balança de malfeitores ou suspeitos de terrorismo. Lorde Carlile, e me penitencio com desculpas abjetas pelo Au-Au anterior, foi direto ao cerne da questão: segundo ele, trata-se de uma tática sem qualquer mérito, além de constituir desperdício de tempo e dinheiro.

Também praticamente garantiu ser um caso nítido de violação dos direitos humanos. Para a imprensa, Lorde Carlile assegurou haver um bom número de casos autenticando suas afirmações.

Lorde Carlile, entrevistado pela BBC, deu um exemplo concreto e bem ilhéu, no sentido de sua suave bizarria, do que estava havendo no país.

Disse ele: "Se, por exemplo, a polícia parar para interrogar e revistar 50 louras, que, evidentemente, em nada correspondem ao perfil de terroristas, temos aí um caso nítido de violação indevida das liberdades civis dessas 50 louras".

50 louras. Não foi em Ilhéus, na Bahia, a última vez em que vi 50 louras. Nem todas juntas, nem cada uma de per si. A bem da verdade, acho que nunca vi, juntas e me olhando feio, 50 louras.

Houve uma vez, em Ipanema, anos 60, no velho Jangadeiros, em que uma loura, numa mesa perto de mim, me olhou bem e... Mas isso não vem ao caso. O que eu quero saber é o porquê de "50 louras" e não "50 louros" ou "50 ruivas" ou "50 ruivos".

Mais: e o lordífero cão de guarda em questão não considerou a possibilidade de cabelos tingidos ou pintados? Ou mesmo perucas?

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