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Um encontro com o chupacabras de Idaho

Encontramos Benjamin Reed em Rupert, uma cidadezinha perdida nos vastos campos de produção de legumes de Idaho, a caminho de Salt Lake City. Branco, 38 anos, nascido em Boise, mórmon, Reed é um daqueles americanos típicos que você pode imaginar quando fecha os olhos.

BBC Brasil |

Ele trabalha como radialista - ganha a vida fazendo há nove anos um programa de rádio em Rupert. Parece até que é uma pessoa como outra qualquer. Mas não é.

Ele é o 'Chupacabras'. Ou melhor, 'El Chupacabras del Micrófono', como é conhecido nas ondas da La Fantástica 970 AM.

Reed é um porta-voz da numerosa comunidade hispânica que trabalha nas fazendas da região. Ele é também exemplo de um fenômeno que descobri ser cada vez mais comum nos Estados Unidos: cidadãos que não são da comunidade hispânica estão se aproximando da cultura e da língua dos hermanos do sul da fronteira. Muitos estão tentando aprender inglês. Mas provavelmente poucos vão chegar um dia ao grau de fluência do 'Chupacabras'. Reed é um ás na língua, e não é só - é especialista em espanhol do México, país de onde vem a maioria de seu público cativo.

O destino aproximou Reed dos latino-americanos. Quando jovem, morou no Arizona, perto da fronteira mexicana, e disse que a experiência foi 'impactante', já que ele fez amizade com inúmeros hispânicos. Mais tarde, de volta a Idaho, ele passaria a frequentar aulas de espanhol e, depois, foi para a Argentina para ser missionário mórmon.

Na Argentina, passou dois anos. Casou com uma argentina, estudou mais espanhol na universidade e agora, separado, está namorando com uma mexicana.

Ele ri quando lhe perguntamos o porquê do codinome. Segundo ele, quando era casado, sua mulher às vezes era violenta demais nas brigas e lhe deixava marcas no rosto. Numa dessas ocasiões, um sócio dele lhe perguntou 'Benjamin, o que aconteceu? O chupacabras te agarrou?' 'A partir desse momento, ele me batizou de o 'chupacabras do microfone'', explicou.

O 'Chupacabras' é um defensor ferrenho dos imigrantes. 'A questão da imigração me atinge de forma pessoal. Minha namorada vinha para cá, tinha todos os papéis e estava tudo certo, mas quando ela chegou no aeroporto de Los Angeles e perguntaram para ela o que ela vinha fazer aqui e ela disse que iria se casar comigo, tiraram o visto dela e a deportaram.'
O engajamento de Reed com a causa dos latinos é tamanho que ele chega a limites perigosos para defender seus ouvintes. 'Quando vem a migra (agentes de imigração), sempre avisamos (por meio do programa de rádio) às pessoas onde eles estão', diz ele, antes de levantar a voz de forma ameaçadora e prosseguir: 'Abertamente, e tenho prazer em fazer isso e vou continuar fazendo. Porque eu penso que, se o governo não cumpre com as promessas de fazer uma reforma migratória, nós vamos ajudar a toda a gente que, na verdade, estão aqui nos ajudando aqui, nesta zona agrícola. Francamente, se não fosse pelos camponeses que trabalham tanto nos campos, a verdade é que não teríamos economia.'
Reed diz que o fato de ser um americano não-hispânico o ajudou no seu trabalho. 'As pessoas me elogiam muito, dizendo, que bom que haja um anglo-saxão, um gringo, que saiba se virar... me apoiaram muito e até me dão certa preferência.'
Estranheza
Se o 'Chupacabras' é um exemplo exagerado de como a cultura hispânica está impregnando o seio da sociedade anglo-saxã americana, o oposto também acontece e parece também ser cada vez mais comum.

Em Caldwell, perto de Boise, um professor da Idaho State University, Galen Louis, ganhou uma bolsa de US$ 240 mil de uma fundação americana para desenvolver um projeto com o objetivo de reduzir a quantidade de adolescentes hispânicos que fumam.

Para implementar a iniciativa, ele decidiu pedir a ajuda de algumas adolescentes latinas que vivem na região. As jovens se reúnem com outros adolescentes e, nas conversas e por meio de jogos, tentam aumentar a conscientização deles sobre os malefícios do cigarro e afastá-los do vício.

Encontramos Galen Louis num café e, junto com ele, estavam três garotas que o estão ajudando no projeto como 'educadoras'. A minha expectativa era de que teríamos um animado colóquio em bom espanhol. Que nada. Verónica Trujillo, Monique Salgado e Jerikey de Leon ficaram longe do idioma.

Veja a história de Verónica. Com sua pele morena, filha de uma mãe californiana de origem mexicana e de um pai mexicano, ela deixou claro que sabe falar um pouco, mas não se sente à vontade para falar nem acha fácil se expressar na língua dos pais. Foi a única que ouvi falar umas três palavrinhas em espanhol, antes de correr para o inglês.

Estranho ver três garotas hispânicas, com sobrenomes latiníssimos, falando o inglês das patricinhas de Beverly Hills. Mais esquisito ainda é conhecer o "El Chupacabras" branquelo que sabe tudo dos grupos de música popular mexicana. Estranho, ainda, mas certamente não por muito tempo.

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