Saud Abu Ramadán. Gaza, 28 dez (EFE).- Um ano depois do início da ofensiva militar israelense na Faixa de Gaza, que deixou 1,4 mil palestinos mortos, vários dos milhares que perderam seus lares ainda vivem em tendas, já que o bloqueio israelense impede a entrada de materiais de construção neste território palestino.

É o caso de Marwan al-Atar, que parece ter deixado de encontrar sentido na vida após quase um ano vivendo em uma precária barraca em Beit Lahia, no norte de Gaza.

"Deixei minha tenda há 45 dias, quando a água da chuva e o vento a destruíram. Minhas filhas contraíram doenças cutâneas e estão em estado grave", diz.

A situação era tão desesperadora que, aos seus 55 anos, al-Atar preferiu voltar para os escombros de sua antiga casa, a continuar vivendo em um acampamento levantado em Gaza há um ano por organizações humanitárias internacionais para as pessoas que perderam seus lares nos bombardeios.

"Agora vivo com meus dez filhos em minha casa destruída. Pedi dinheiro a um parente para reconstruir um quarto e um banheiro.

Ninguém se preocupa em nos enviar comida ou dinheiro. Estamos esquecidos", lamenta.

A situação não é muito melhor para quem segue no acampamento, onde crianças descalças brincam em um insalubre charco, aparentemente alheios a sua desgraça.

O céu cinza, o forte vento e a proximidade à protegida fronteira com Israel reforçam o caráter deprimente do lugar, em que as 20 tendas parecem frágeis; os pais, vulneráveis; e os arredores, desertos.

Seus moradores ainda esperam os US$ 4,481 bilhões prometidos por mais de 70 países em março, no Egito, para a reconstrução de Gaza após a ofensiva israelense, que aconteceu há um ano.

Além de 1.400 palestinos mortos (em sua maioria civis) e mais de 5 mil feridos, os 22 dias de ofensiva israelense por terra, mar e ar deixaram 4.100 edifícios destruídos totalmente e outros 17 mil danificados em maior ou menor medida, segundo números do Ministério de Habitação do Governo do movimento radical islâmico Hamas.

Os moradores de Gaza não podem importar materiais de construção devido ao bloqueio israelense, iniciado em 2006.

As Nações Unidas e organizações humanitárias tentam atenuar a situação com dinheiro, comida, cobertores ou tendas para os desabrigados, mas a falta de perspectivas de um futuro melhor gera pessimismo.

"Parece que meus sonhos nunca se tornarão realidade. Passou quase um ano e nada mudou. Ao contrário, tudo está piorando", diz al-Atar.

Saleh Abu Laila, de 52 anos, continua vivendo no acampamento com suas duas mulheres e seus 20 filhos: "Viemos para cá quando nossa casa ficou completamente destruída. O Governo do Hamas me deu 2 mil euros, mas só serviram para comprar móveis para as duas tendas de campanha, não para reconstruir a casa".

Marwan e Saleh carregam as feridas psicológicas de uma invasão que deixou cicatrizes mais visíveis nas centenas de palestinos que ficaram mutilados e tentam agora refazer suas vidas.

Um deles é a jovem Yamila al-Habash, que perdeu suas duas pernas quando um míssil israelense atingiu sua casa na região leste da capital Gaza e matou sua irmã mais nova e sua prima com as quais brincava.

Seu pai, Mohammed, foi o primeiro a chegar ao quarto das meninas: "Foi um massacre. Os membros das crianças estavam espalhados pelo chão".

A jovem, que tinha 14 anos na época, acordou no hospital e descobriu a tragédia ao levantar o lençol: "Onde estão minhas pernas?", perguntou.

Um ano depois, Yamila vai à escola andando com o apoio de muletas e graças a uma perna mecânica.

O diretor do centro de Membros Artificiais de Gaza, Hazem al-Shawa, assegura que foram implantados membros mecânicos em 76 pacientes e outros 174 ainda esperam sua vez.

Yamila sonha em ser jornalista para informar sobre o "sofrimento palestino" e não descarta a possibilidade de ser mãe no futuro.

"A quem pensa que eu perdi tudo, digo que conservo a esperança e a fé em Deus", declara, com um otimismo pouco frequente em uma Gaza ainda ferida pela ofensiva israelense de um ano atrás. EFE Sa'ar-ap/pd

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